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GÉNESE
1877-1895 |
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Nasce, a 2 de Novembro de 1877, numa casa da rua Teixeira de Vasconcellos,
no coração de Amarante, Joaquim José Teixeira de Vasconcellos, mais
tarde Teixeira de Pascoaes, filho de João Pereira Teixeira de Vasconcellos
e de D. Carlota Guedes Monteiro. Do momento do nascimento tirará,
na abertura do segundo capítulo do Livro de Memórias (1928),
o prognóstico de um horóscopo: "A tarde em que eu nasci (...) nimbou
duma auréoloa triste a minha infância, e entranhou-se em mim para
sempre." Já antes, na segunda edição de Terra Proibida (1917),
nas estâncias de "A Minha História (1877-1901)", a nascença lhe
servira de presságio para a vida e para os versos: "Em Novembro
nasci por uma tarde triste, / (...) / Nasci no dia eleito da Saudade,
/ (...) Nasci naquela tarde angustiosa e calma, / (...) / Nasci
ao pôr do Sol dum dia de Novembro. / O meu berço o crepúsculo embalou
... / E até parece, às vezes, que me lembro, / Porque essa tarde
triste, em mim, ficou."
Muda-se, em 1879 ou 1880, aos dois anos, para a casa de Pascoaes,
pertença do pai, na freguesia de São João de Gatão, nos arrabaldes
rurais de Amarante, onde passará a infância, que foi, como ele anota
no Livro de Memórias, o seu período mitológico, sem história
nem cálculo, em que viveu rodeado de criados que eram deuses, visitantes
que eram almas ou lendas, e pedintes que faziam as vezes de fantasmas.
Brincar era ser sério. A irmã, Maria da Glória, no livro Olhando
para trás Vejo Pascoaes (1971), diz que "Pascoaes foi sempre
um homem, nunca foi criança", o que é também um outro modo de dizer
que ele foi sempre um menino, nunca um adulto. No Livro de Memórias,
capítulo terceiro, adianta que ultrapassou os limites do Éden quando
pela primeira vez foi para a escola, o que deve ter acontecido por
volta de 1884. São duríssimos os termos com que Pascoaes, quer no
Livro de Memórias, quer em Uma Fábula (1978), castiga
a escola, em particular a amarantina, entre o colégio das primeiras
letras e o liceu, onde deve ter permanecido até ao ano lectivo de
1894-5, o do aparecimento público, com as primeiras colaborações
poéticas no jornal A Flor do Tâmega. Todos os auto-retratos
estudantis de Pascoaes são crudelíssimos; a dor de outrora arrasta-se
até ao presente em que é enunciada, como se não conhecesse fim,
sublinhando assim a brutalidade inexpiável do pesadelo escolar.
O período da génese de Teixeira de Pascoaes foi o do parto da geração
de 90, com o epicentro na cidade do Porto, que vai do Manifesto
dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa do 31 de Janeiro
de 1891 (1891) de Sampaio Bruno, e prosa consequente, à poesia
em verso de António Nobre e sem verso de Raúl Brandão. As dores
desse parto foram as correntes fortes que a geração de 70 agitava
na sociedade portuguesa da época, com o suicídio de Antero e a tergiversação
de Junqueiro e Eça, com Os Simples (1892) e A Ilustre
Casa de Ramires (1897), que seguem o novo gosto, que à falta
de outro desígnio apelidamos de neogarrettista. Pelo meio, soldando
com eficácia o naturalismo de uns e o sentido do mistério dos outros
está, a prosa irrecusávelmente pontifical de Fialho, da Madona
de Campo Santo (1882) ao País das Uvas (1893). E isto
que aqui se aponta para o período de gestação serve também para
a época das primeiras publicações de Teixeira de Pascoaes, toda
ela marcada pelo impulso renovador que se seguiu ao Ultimatum
de 1890.
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PRIMEIRAS PUBLICAÇÕES
1895-1901 |
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Primeira publicação em livro, Embriões [Embryões],
em 1895, na Tipografia Industrial do Porto, assinado excepcionalmente
com o nome de Joaquim P. Teixeira de Pascoaes e V., definitivamente
mudado depois em Teixeira de Pascoaes. Maria da Glória abre o quarto
capítulo do seu livro de memórias dizendo que o irmão queimou todos
os exemplares que encontrou do livro, o que ele confirma em passagem
de Uma Fábula. De qualquer modo, alguns dos versos que Pascoaes
publicou de seguida - Belo [Bello] (1896-7), À
Minha Alma [Á Minha Alma] (1898), Sempre (1898),
Terra Proibida (1899) e À Ventura [Á Ventura],
a que se podem acrescentar as Cantigas para o Fado e para as
Fogueiras do San João [org. de Augusto Gil e Afonso Lopes Vieira;
1899] e Profecia [com Afonso Lopes Vieira; 1901 (?)] - cheiram
aos do seu livro de estreia, a par de outros magistrais, que falam
da saudade, onde se respira a segurança da arte, aliada à verdade
da criação. Por duas vezes - no prólogo da terceira edição do Sempre
(1915) e em O Homem Universal (1937) - regressará aos versos
de Belo, para ver neles os cromossomas de toda a sua obra
poética posterior.
É o tempo em que Pascoaes troca Tâmega e Douro por Mondego, primeiro
para completar, no ano lectivo de 1895-6, o último grau do curso
do Liceu e depois para se matricular e frequentar o curso da Faculdade
de Direito da Universidade de Coimbra, que perfaz, com a magra nota
de 11 valores, no ano lectivo de 1900-1901. Dos seis anos lectivos
passados em Coimbra ficaram as quatro casas onde viveu e de que
nos chegou relato (Rua do Cabido, 11; Rua da Esperança, 23; Rua
da Ilha, 12 e Rua dos Estudos, 14), os poetas com quem conviveu
e de que deixou testemunho nas memórias (Afonso Lopes Vieira, Augusto
Gil, Fausto Guedes Teixeira, António Correia de Oliveira, João Lúcio),
a juvenília quase abundante que deu a imprimir, as cartas de amor
que escreveu a Maria Fernanda de Magalhães e Meneses (depois Van
Zeller), a notícia do fado do Hilário e da boémia das tascas e serenatas,
que foi para ele o mundo mitológico da sua infância redescoberto
na idade tardia do diploma. Pascoaes confessou ter convivido na
sua primeira idade, quando as criadas lhe contavam fábulas e os
pedintes recitavam a meia voz orações, com deuses telúricos, mas,
nas margens do Mondego, a ouvir o Hilário, por entre fadistas e
prostitutas, à luz da lua, num ambiente morno e moçárabe, redescobriu
o mesmo universo original, talvez mais alvo e aquático, com anjos
de buço loiro e sereias de carne pálida.
Calado e cogitativo, muito metido consigo e com os versos, Pascoaes
abriu, porém, os olhos da alma a Coimbra; viu, num clarão interior,
a sua essência antiga e primeira por isso, sempre que quis, a pintou
magistralmente. Quarenta anos depois, no livro O Penitente
(1942), gravou, a ácido reactivo, esta espantosa água-forte: " O
que há de original em Coimbra, e se nos grava na memória, é a exótica
mistura de cheiro a lente e a bafio com o cheiro a iscas e a fêmea."
(cap. V)
Coimbra foi um puro acidente intervalar, a que Pascoaes se adaptou
menos por via do regulamento que da boémia. O autor de Belo tinha
nos seus primeiros versos a cinza do granito portuense mas a estúrdia
meridional apareceu-lhe como uma divindade quente e lunar, própria
dos jardins encantados, que ele cultuou pela vida fora, mesmo que
à distância, com a seriedade luminosa do riso, até às derradeiras
cenas do seu livro Duplo Passeio (1942), passadas na embriaguez
de uma discoteca.
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A SAUDADE E O SAUDOSISMO
1903-1911 |
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Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno, centrados no vértice cimeiro
do Porto, lapidam, na transição do século XIX
para o XX, os verdadeiros diamantes da sua obra, que serão
apresentados, não sem surpresa e incompreensão, entre
1902 e 1904. Estou a falar de livros como Oração
ao Pão e Oração à Luz, esta última
tida em conta pelo Fernando Pessoa sensacionista de 1916 como "the
greatest metaphysico-poetical achievement since Wordsworth's great
Ode", e ainda de livros como A Ideia de Deus
e O Encoberto, estudo lento mas sólido, que ultrapassou
de vez as teses culturais portuguesas formadas no ambiente mimético
das guerras da Restauração de 1640, que levaram ao
sempre desde então repetido complexo de inferioridade português.
Teixeira de Pascoaes, livre do Mondego, de regresso ao ângulo
natal, que vai do Tâmega ao Douro, arranca por esta altura,
aos vinte e cinco anos, para uma obra ímpar, toda de igual
importância, que só irá terminar, com a sua
morte, cinquenta anos depois, mas que é possível mapear
segundo períodos circunstanciais da sua vida de escritor
ou da vida pública do país. Este primeiro, atravessando
sem se queimar os últimos anos da monarquia brigantina, com
regicídio pelo meio, é o prolegómeno daquilo
que virá a ser a Renascença Portuguesa, colectividade
social e cultural fundada em 1911. A originalidade que a obra de
Teixeira de Pascoaes apresenta nos anos que vão de 1904 a
1911 é definitiva, assim como a segurança artística
que evidencia é permanente.
A obra que então publica - Jesus e Pã [Jesus
e Pan] (1903); Para a Luz (1904); Vida Etérea
[Vida Etherea] (1906); As Sombras (1907); Senhora
da Noite (1909) e Marânus[Marános]
(1911) - é a que melhor acompanha na época as grandes
realizações coalescentes de Junqueiro e Bruno. O mesmo
Fernando Pessoa que se maravilhou com a Oração
de Junqueiro, tomou um poema da mesma época de Pascoaes,
falando da saudade, a "Elegia" de Vida Etérea
(depois conhecida e dada à estampa com o nome, Elegia
do Amor), como uma realização que lhe era superior.
Se a obra poética de Pascoaes fosse apenas aquilo que ele
deu a lume entre 1903 e 1911, não deixava de ser o monumento
que é. Para além da arte e da singularidade, é
visível nesta época uma desenvoltura surpreendente
de pensamento, patente na polémica em prosa que Januário
Leite [J. L.] mantém com ele no portuense jornal anarquista
A Vida (1907), mas que se alarga sem defeitos a quase toda
a obra em verso então publicada, repleta de inquietações
sociais e reflexões espirituais.
O Porto, para onde Teixeira de Pascoaes foi advogar em 1906 (Rua
das Taipas), é, por esta altura, a cidade pertinaz de Sampaio
Bruno, inspirada por um dinamismo histórico e religioso,
e agitada por uma aura de vitalidade messiânica. A cidade,
fazendo render a memória heróica do cerco absolutista
de 1832-3, protagoniza conscientemente um esforço de evolução,
que faz dela a capital moral do país. Foi nesse Porto republicano
e libertário, que misturava a crescente combatividade dos
operários manuais de oficina com os restos da rebelião
militar e poética do 31 de Janeiro, que, a abrir o século
XX, se deu o encontro de Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra,.
Jaime Cortesão, Álvaro Pinto, Augusto Casimiro, António
Carneiro e Cristiano de Carvalho, que serão, com António
Sérgio, Raúl Proença e Câmara Reis, depois
de várias realizações conjuntas (revista Nova
Silva e jornal A Vida), a cabeça, o tronco e os
membros da Renascença Portuguesa.
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A RENASCENÇA PORTUGUESA
1912-1932 |
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Fundada a 27 de Agosto de 1911, no Choupal de Coimbra, entre o
Tejo e o Douro, A Renascença Portuguesa foi o lugar franco
de convívio de duas tendências desencontradas, a poético-filosófica
de Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra e a científico-pedagógica
de António Sérgio e Raúl Proença; foi
aí, no espaço desse diálogo, que o movimento
revolucionário que conduziu ao 5 de Outubro de 1910 se salvou
de ser apenas mais um batalhão de fuzilamento ou mais uma
onda de arrivistas. A Renascença Portuguesa é, além
de outras coisas, o corpo central da cultura portuguesa do século
XX, raiz e caule de onde depois divergiram integralistas e seareiros,
braçadas que deixara pelo século frondosa descendência
e tiveram nele alternada e oposta influência. A Renascença
Portuguesa, que escolheu como patronos Guerra Junqueiro e Sampaio
Bruno, duas figuras que fizeram a transição da geração
de 70 para a de 90, viveu enquanto a primeira República durou,
já que a liberdade lhe era, por tudo, ingénita; o
último número do orgão da associação,
a revista A Águia, foi publicado em Junho de 1932
(3º número da Vª Série)2 e pode
ser tido como o último acto da Renascença Portuguesa.
A vida do colectivo foi, ainda assim, suficientemente longa e profícua,
com uma colecção gigantesca de publicações
(múltipla actividade editorial e saída regular da
revista A Águia, ao longo de mais vinte anos) e, no
quadro da Faculdade de Letras do Porto fundada por Leonardo em 1919,
com o parto de uma segunda geração de renascentes,
tão brilhante e interveniente como a primeira, Agostinho
da Silva, Adolfo Casais Monteiro (que chegou, em 1928-9, a dirigir
a A Águia), Sant'Ana Dionísio, José
Marinho, Álvaro Ribeiro, Delfim Santos, António Salgado
Júnior, de que naturalmente se aproximam Américo Durão,
José Gomes Ferreira e Domingos Monteiro, que não foram,
com a excepção liceal de Gomes Ferreira (cujo pai,
Alexandre Ferreira, colaborara já com A Águia),
alunos de Leonardo Coimbra, mas também eles, para lá
do concurso mais ou menos esporádico que emprestaram à
publicação da Renascença Portuguesa, aparecem
formados pela operatividade da primeira geração renascente,
com especial destaque para a dupla Pascoaes-Leonardo. A que , de
modo seu, deram seguimento.
Neste período a obra de Pascoaes aprofunda as tendências
em verso antes manifestadas, mostrando avantajada destreza artística
no verso narrativo-dramático (Regresso ao Paraíso,
1912; O Doido e a Morte, 1913; D. Carlos, 1925; O
Pobre Tolo [versão em verso], 1931) e mestria amadurecida
no lírico (Elegias, 1913; Miss Cavell, 1915;
Londres, 1917; Elegia da Solidão, 1920; Cantos
Indecisos, 1921; Cânticos, 1925); diversifica ainda
a prosa de ideias, que, sem deixar o domínio da criação,
se apresentou combativamente apelativa (O Espírito Lusitano
e o Saudosismo, 1932; O Génio Português na sua
Expressão Filosófica, Poética e Religiosa,
1913; A Era Lusíada, 1914) ou propositadamente pedagógica
(Arte de Ser Português, 1915; Os Poetas Lusíadas,
1919; Conferência, 1921; A Caridade, 1922);
inicia uma poesia em prosa (Verbo Escuro, 1914; A Beira
num Relâmpago, 1916; O Bailado, 1921; A Nossa
Fome, 1923; O Pobre Tolo [versão em prosa], 1924;
Jesus Cristo em Lisboa [em colaboração com Raul
Brandão] 1927; Livro de Memórias, 1928), comparável
só à do autor do Húmus (1917), que será
cada vez, pela adequação à rapidez e intensidade
do seu pensamento por imagético, a expressão usada
por Pascoaes.
A cultura portuguesa deste período foi, pelo menos até
à fundação da Seara Nova, em 1921, marcada
pela Renascença Portuguesa e pela figura central de Teixeira
de Pascoaes, director literário da revista A Águia
(1912-1926) e teorizador, no sentido poético-visionário,
do saudosismo, de que ainda se encontram importantes segmentos em
Os Poetas Lusíadas. Trata-se de um período
culturalmente riquíssimo, em que tudo, desde o Integralismo
Lusitano ao Orpheu, se faz por acção ou reacção
à Renascença Portuguesa e ao saudosismo, que permanecem
os factos matriciais deste período. Depois da Seara Nova,
que no dizer de Pascoaes foi o voo da Águia para Lisboa,
onde encheu o papo no Terreiro do Paço, a cultura livre dividiu-se
por dois cursos e o protagonismo do Porto empalideceu, até
quase desaparecer com o extermínio da revolução
de Fevereiro de 1927 contra a ditadura militar e a extinção
da Faculdade de Letras do Porto pelo proto-salazarismo de 1931-2.
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O ATEÍSMO DE DEUS
1934-1952 |
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Com a Constituição Portuguesa de 1933 cai, durante
quase meio século, sobre a sociedade portuguesa, uma cortina
de cinza e silêncio. É o reposteiro pesado e escuro,
a cheirar mal, da censura ao livro e à Imprensa, que deixou
mais um rasto de boçalidade e medo em sucessivas gerações
de portugueses. Teixeira de Pascoaes resiste ao estado de sítio
interno e externo, com o afrontamento civil em Espanha e a generalização
da guerra à Europa, recusando em 1933, uma condecoração
de Estado oferecida pelo regímen da nova Constituição
(o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago), recebendo,
na sua casa de São João de Gatão, de Setembro
de 1939 a Janeiro de 1947, um casal de foragidos alemães,
escapados ao nazismo, com quem estava em contacto desde Junho de
1935, Albert Vigoleis Thelen e Beatrice Bruckner, e fazendo, em
1949, contra o cesarismo autocrata de Oliveira Salazar, campanha
pública a favor da candidatura presidencial de Norton de
Matos.
Boa parte da obra poética de Teixeira de Pascoaes dada á
estampa neste período plasma-se naquela prosa escura e luminosa,
de grande agilidade sintáctica, cuja fonte mais próxima
data de 1912 ou 1914; do boleio da sua frase ressalta um inusitado
equilíbrio de elementos díspares e antagónicos,
todos eles harmoniosamente embutidos no corpo do texto. Essa prosa
mostra-se, pela liberdade intrínseca com que trabalha as
suas imagens, a melhor resposta a uma censura de imediatismos ideológicos.
É a partir do ateísmo de Deus que o texto, narrativamente
biográfico ou enunciativamente digressivo, se desenvolve,
mostrando-se ao mesmo tempo secreto e pródigo.
Falamos da prosa caudalosa dos romances (alguns ainda hoje inéditos:
O Senhor Fulano; O Anjo e Bruxa; este último
em dois volumes) e das biografias (São Paulo, 1934;
São Jerónimo e a Trovoada, 1936; Napoleão,
1940; O Penitente (Camilo Castelo Branco), 1942; Duplo
Passeio, 1942; Santo Agostinho, 1945; O Empecido,
1950; Dois Jornalistas, 1952), a que se pode ainda acrescentar
a prosa enuncitiva dos textos críticos ou de ideias, cada
vez mais subtil e capciosa, desinteressada que se mostra de qualquer
intervencionismo momentâneo ou justificação
exterior (O Homem Universal, 1937; Guerra Junqueiro,
1950; Drama Junqueiriano, 1950; Pro Paz, 1950; António
Carneiro, 1952). A este corpo maior é necessário
anexar os raros versos que o autor deu por então à
estampa e que tendem a apresentar curiosamente as mesmas características
incomputáveis da sua prosa (Painel, 1935; Versos
Pobres, 1949), com uma inclinação irrecusável
para o versilibrismo de mais ampla respiração, que
plenamente se preencherá depois nos versos escritos à
beira do fim (Últimos Versos, 1953 e Versos Brancos,
estes ainda hoje inéditos).
A primitiva geração da Renascença Portuguesa,
que dera o laço no Porto operário de 1906, e que,
arrastando Sérgio e Proença, aparece como a primeira
geração cultural portuguesa do século XX, foi
centrifugada pela ditadura militar, com o desterro de Jaime Cortesão
e Augusto Casimiro, e depois, no salazarismo, com o desaparecimento
de Teixeira Rego (1934) e Leonardo Coimbra (1936), o afastamento
para a semi-clandestinidade de Cristiano de Carvalho (que, conta-se,
deu guarida em Matosinhos a Trotsky), a apostasia igual a si mesmo
de Álvaro Pinto e a solidão cada vez mais escondida
e cósmica de Teixeira de Pascoaes, retirado nos ermos de
Gatão ou de Travanca do Monte, nas faldas do Marão,
alimentado a castanha, como Thoreau em Walden ou São Jerónimo
no deserto da Cálcida.
A cultura portuguesa desses anos aparece policiada por uma censura
difusa, mas apertadíssima, que deixa apenas à superfície
os exemplos que decorriam do Integralismo Lusitano, onde o salazarismo
bebia a sua seiva, ou os do seu rival contrário, o movimento
neo-realista, eufemismo sofrível para realismo socialista
de orientação estalinista, que, a partir da guerra
civil de Espanha, se torna insaciável e devorador. Nas franjas,
andam aparentados de seareiros e futuristas, com um Almada e um
Ferro atraídos por Oliveira Salazar, e um Abel Salazar, médico
distinto da oposição ao Estado Novo, instituindo,
por volta de 1935, na revista portuense Pensamento, uma histologia
do literário, que põe gratuitamente a ciência,
sobremodo a psiquiátrica, ao serviço da normalização
da arte e dos artistas. Escapam a este clima de compressão
os da revista Presença, onde os discípulos
de Leonardo Coimbra (Adolfo Casais Monteiro e José Marinho)
combatem na primeira linha e nas páginas da qual surge Eudoro
de Sousa, e sobretudo os surrealistas que aparecerão na década
de 40 e, com Mário Cesariny, António Maria Lisboa,
Alexandre O'Neill, Cruzeiro Seixas, Mário Henrique Leiria,
Pedro Oom e Luiz Pacheco, se tornarão na corrente de ar livre
e fresco que foi possível respirar na sociedade portuguesa
da transição da primeira metade do século XX
para a segunda. António Maria Lisboa elogiou em carta a obra
e a personalidade de Teixeira de Pascoaes e lamentou não
ter a possibilidade de o conhecer; Mário Cesariny subiu,
por sua vez, em 1950, a Amarante, para ouvir uma conferência
que Pascoaes dava sobre Guerra Junqueiro, no Teatro Amarantino,
e a partir daí não mais deixou de frequentar a sua
poesia, que, vinte e dois anos depois, quando magnanimamente a antologiou,
considerou superior à de Fernando Pessoa.
Neste período, de 1935 a 1950, Teixeira de Pascoaes, desterrado,
criticado sem rodeios por Oliveira Salazar, escrevendo uma obra
quase secreta sobre o ateísmo de Deus, tornou-se, com o romancista
Ferreira de Castro, o escritor português mais traduzido nas
línguas europeias: São Paulo para espanhol
(1935), para holandês (1937), para alemão (1938), para
húngaro (1943); São Jerónimo para holandês
(1939), para alemão (1941); Napoleão para espanhol
(1946), para holandês (1950); Verbo Escuro para holandês
(1946), para alemão (1949); Regresso ao Paraíso
para checo (1936)3. Os principais tradutores foram o poeta holandês
Hendrick Marsman, homicidado em 1940 quando fugia da Holanda recém-ocupada
para Amarante, e o escritor alemão Albert Vigoleis Thelen,
que se escondeu durante quase oito anos em Gatão, e foi quem
melhor compreendeu e decifrou a saudade de Teixeira de Pascoaes.
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O FIM SEM FIM
14-12-1952 |
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Teixeira de Pascoaes adoeceu gravemente dos pulmões em finais
de Outubro de 1952, foi internado na Ordem do Carmo, Porto, a 28
de Novembro, regressou à sua casa de São João
de Gatão nos primeiros dias de Dezembro e aí faleceu
a 14 de Dezembro de 1952, depois de vinte horas de silêncio
e imobilidade, sem sinais de sofrimento, segundo o testemunho da
sua sobrinha Maria José no livro Na Sombra de Pascoaes-Fotobiografia
(1993). Foi assim que Pascoaes sonhou a morte em vida, a morte da
sua vida, o fim sem fim, igual ao Deus sem Deus do seu pensamento
hagiomáquico, quando deste modo a cantou no soneto "Hora
Final", que fecha o livro Terra Proibida: "Como
seria bom morrer assim
/ Morrer, como a paisagem desfalece.
/ Morrer, quase a sorrir, devagarinho". As últimas palavras
que a sobrinha lhe ouviu, muitas horas antes do passamento, foram:
"- Até amanhã", mas o epitáfio para
esse momento escreveu-o ele e está hoje, em letras despidas
e simples, sobre a sua campa, no cemiteriozinho de Gatão,
eternizando, naquela terra humilde e esquecida, o momento do seu
fim e da sua cinza: "Apagado de tanta luz que deu / Frio de
tanto calor que derramou." O corpo foi metido num caixão
despojado e pobre de pinho, feito de um pinheiro em forma de lira,
que Pascoaes, fazia tempo, havia escolhido para esse fim, e lá
ficou para sempre, nesse esquife de Orfeu e São Francisco.
Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos nas já referidas
memórias, Olhando para Trás Vejo Pascoaes,
aponta que, no dia 16 de Dezembro, além dos familiares mais
chegados, dos parentes e da gente anónima do lugar, acompanharam
o corpo de Pascoaes ao cemitério Mário Beirão,
Anrique Paço d'Arcos, António Duarte, que lhe fez
a mão e a máscara, Eugénio de Andrade, Carlos
Carneiro, Eduardo e Ernesto Veiga de Oliveira e outros que não
especifica.
A seguir à sua morte foram dados à estampa, em verso
e prosa, alguns inéditos dos anos do fim: Últimos
Versos (1953), A Minha Cartilha (1954), João
Lúcio (1973), A Velhice do Poeta (duas versões:
1973, 1989), Da Saudade (1973), Uma Fábula
(o advogado e o poeta) (1978). Apareceram, por outro lado,
vários epistolários, sobretudo na última década
do século XX, alusivos a períodos em geral da juventude
ou primeira maturidade de Pascoaes: Epistolário Ibérico
-Cartas de Pascoaes e Unamuno (org. de Joaquim de Montezuma
de Carvalho, 1957), "Correspondência Familiar" (in
Olhando para Trás Vejo Pascoaes, 1971), Uma Amizade
- Cartas de Pascoaes a Anrique Paço d'Arcos (org. de
Maria do Carmo Paço d'Arcos, 1993), Cartas de Pascoaes
e Cebreiro (Epistolário Galaico-Português)
(1993), Raul Brandão - Teixeira de Pascoaes. Correspondência
(org. António Marques Vilhena e Maria Emília Marques
Mano, 1994), Cartas de Amor (1996), Os Intelectuais
Galegos e Teixeira de Pascoaes. Epistolário (org. Eloísa
Alvarez, 1999), a que se pode acrescentar o livro de Albert Vigoleis
Thelen, Cartas a Teixeira de Pascoaes[1935-1952] (1997).
Foram ainda publicados, de forma dispersa, mas regular e repetida,
em jornais diários ou revistas, alguns dos Versos Brancos
(que tinham sido anunciados em Dois Jornalistas como "Poemas
dos 70 anos"), passagens do livro Cartas a uma Poetisa
(dirigidas à escritora Cacilda Pinto Coelho de Castro), que
parece ter sido o primeiro livro de prosa do autor, dois fragmentos
de Fernão Lopes, texto coetâneo das grandes
biografias pascoesianas, e um curto extracto de cada um dos dois
romances inéditos de Pascoaes acima nomeados. Foram ainda
dados a público textos soltos, alguns de grande importância,
como esse "A Alma Ibérica" (1971), que devia ter
servido de exórdio às edições do Epistolário
Ibérico, mas infelizmente não serviu, e algumas
cartas não recolhidas em livro (a Bernardo de Vasconcelos,
Afonso Duarte, Sant'Ana Dionísio, Joaquim de Montezuma de
Carvalho, António Carneiro, Marques Gastão, Suzanne
Jeusse, Ribera i Rovira, António Dias de Magalhães,
Jaime Cortesão, Mário Beirão, Fernando Pessoa,
Leonor Dagge, Leonardo Coimbra, José Osório de Oliveira
e outros). Em 1972, na antologia Poesia de Teixeira de Pascoaes
(org. Mário Cesariny), surgiu, em todo o seu mistério
e simplicidade, a pintura do autor.
Ainda assim, ao arrepio destas milhares e milhares de páginas,
esperam publicação alguns volumes, de que só
se conhecem, a bem dizer, uma ou duas linhas - Cartas a uma Poetisa,
Versos Brancos, Fernão Lopes, O Senhor Fulano,
O Anjo e a Bruxa - e aguardam reunião em livro epistolários
diversos.
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RELANCE BIBLIOGRÁFICO EM PROSA
1952-2002 |
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Entre os trabalhos em prosa dedicados à obra de Teixeira
de Pascoaes são de destacar, logo de entrada, os da segunda
e última geração da Renascença Portuguesa,
a dos discípulos de Leonardo Coimbra, que dirigiram a revista
A Águia, e outras publicações congéneres,
entre 1929-1932. Sant'Ana Dionísio dedicou-lhe um dos primeiros
livros com verdadeiro interesse, O Poeta essa Ave Metafísica
(1953) e José Marinho, além da subtilíssima
atenção que lhe presta em capítulos de livros
seus (v. "Filosofia da Saudade e Filosofia Profética",
in Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português
Contemporâneo, 1976), fez a sua tese de licenciatura,
em 1925, com a orientação mais que provável
de Leonardo Coimbra, sobre a poesia de Teixeira de Pascoaes, Ensaio
sobre a Obra de Teixeira de Pascoaes. As noções
finais do pensamento de Marinho, expostas na Teoria do Ser e
da Verdade (1961), ganham em ser confrontadas com as de Pascoaes
do ateísmo de Deus. Os restantes, de Agostinho a Casais,
sem esquecer Gomes Ferreira e Domingos Monteiro, a que sem receio
se somam os presencistas mais característicos (José
Régio e Gaspar Simões), em menor ou maior abertura,
deixaram sobre a obra de Pascoaes o seu contributo de estudiosos,
de intérpretes, de admiradores. A estes estudos juntam-se,
com o memo diversificado interesse, os dos continuadores desta geração,
que foi em extensão a da Filosofia Portuguesa, Dalila Pereira
da Costa (Pascoaes d'As Sombras à Senhora da Noite,
1992), António Quadros, Orlando Vitorino, Afonso Botelho
(Saudosismo como Movimento, 1960; Da Saudade ao Saudosismo,
1990; Saudade, Regresso à Origem, 1997), António
Telmo, António Braz Teixeira (Deus, o Mal e a Saudade,
1993)4; Pinharanda Gomes [A Renascença Portuguesa,
1984; e ainda a generosa reunião dos textos pascoaesianos
de A Saudade e o Saudosimo (Dispersos e Opúsculos),
1988].
De seguida, os surrealistas e singularmente Mário Cesariny,
que foi a Amarante ouvir Pascoaes, dele falou entusiasticamente
aos amigos, antologiou-lhe por duas vezes a obra (Aforismos,
1972; Poesia de Teixeira de Pascoaes, 1972), esteve na origem
da publicação do epistolário de Thelen, de
que anotou cópia manuscrita, e não se ensombrou de
dizer, contra os ventos fortes e as marés vivas do tempo,
que eram os do modernismo de escola e do que dele começava
a sobreviver, que esta poesia apagava a de Fernando Pessoa. As afirmações
de Mário Cesariny sobra a poesia de Pascoaes - "Teixeira
de Pascoaes, poeta bem mais importante, quanto a nós, do
que Fernando Pessoa." (1973) - são, além de modelo
invejável de liberdade, de quem ousa dizer o que pensa, sem
censura, das que deixam consequências irreversíveis
no jogo da chamada história literária portuguesa,
pois subvertem saudavelmente a mecânica corrente do funcionamento
da dita e destabilizam os juízos que ela sempre nos ofereceu
como certezas indiscutíveis. Na compressão em que
foi, ao longo da sua aventura, obrigado a viver com os seus amigos,
Cesariny encontrou em Teixeira de Pascoaes a realidade delirante
absoluta, mais velha que a origem, eternamente se rindo da ilusão
do mundo e da sua seriedade. Por cima de futurismos e modernismos
lisboetas, todos muito enfatuadamente epocais, à la page,
o saudosismo de Pascoaes, arrancando aos campos virgens da consciência
e do mundo o brilho da lua e a cintilação estranhamente
outra das estrelas, deu a mão ao surrealismo de Cesariny,
garantindo-lhe uma antecedência sem pretensões de corrida
às novidades de superfície. A conversa de Cesariny
com Teixeira de Pascoaes, o abraço dos dois, na cinza do
luar, é porventura a grande e mais luminosa gargalhada da
cultura poética portuguesa do século XX.
Agora, o escritor Albert Vigoleis Thelen, que leu a tradução
espanhola do São Paulo, em Maiorca, no ano de 1935,
e se tornou depois disso no mais versado conhecedor da sua literatura,
além de ter sido aquele que mais fez por ela, promovendo-a
e dando-a a ler e estudar em países como a Holanda, a Alemanha,
a Áustria e a Suiça. Thelen e Beatrice abandonaram
a Alemanha em 1931, no momento da ascenção do nazismo,
viveram seis meses em Amesterdão e mudaram-se depois para
a ilha de Maiorca, em Espanha, onde viveram até Setembro
de 1936, momento em que fugiram, num cruzador britânico, da
ilha, que aderira ao levantamento fascizante de Julho. Na primeira
metade do ano de 1935, Thelen descobre na casa de banho de Juan
Sureda de Bimet, pai de Pedro Sureda, a quem Beatrice dava aulas
de inglês, um livro clandestino que este aristocrata arruinado
guardava num esconderijo ao pé da retrete. O livro era a
tradução espanhola, com prefácio de Miguel
de Unamuno, do São Paulo de Teixeira de Pascoaes.
Foi assim, nesta caricata posição, que Thelen o leu.
Surpreendido pela revelação, escreveu ao autor, manifestando-lhe
um interesse inconcutível em verter o livro para a sua língua
materna. Mais tarde, o seu romance Die Insel des Zweiten Gesichts
("A Ilha do Segundo Rosto", 1953)5 tornou-se
o mais valioso elemento bibliográfico sobre a obra e a personalidade
de Teixeira de Pascoaes, com quem conviveu diariamente durante os
quase oito anos em que se escondeu em São João de
Gatão. Thelen estreou-se, enquanto escritor, com um livro
de versos que é o roteiro da casa de Pascoaes, Schloss
Pascoaes (1942), e chegou a escrever uma biografia de Pascoaes,
Die Gottlosigkeit Gott ("O Ateísmo de Deus"),
que se perdeu, mas de que se conhecem dois ou três fragmentos.
Olívio Caeiro, que foi o primeiro estudioso português
da criação de Thelen, antologiando poemas seus na
silva Oito Séculos de Poesia Alemã (1983),
traduziu-os para português, em conjunto com os versos de estreia,
num livro capital, Albert Vigoleis Thelen no Solar de Pascoaes
(1990). João Barrento, do lado português, e Jürgen
Pütz, do alemão, mantêm vivo o interesse pelo
diálogo Pascoaes-Thelen, ou Thelen-Pascoaes, dando seguimento
e saída aos estudos de Caeiro, que morreu em 1997. Agustina
Bessa-Luís tratou a estadia de Thelen em Pascoaes no romance
O Susto (1958), que Jorge de Sena, na sua antologia e estudo
A Poesia de Teixeira de Pascoaes (1982), outro marco deste
relance bibliográfico em prosa, considera uma biografia de
Teixeira de Pascoaes.
Católicos e neo-realistas, que foram no salazarismo as duas
culturas oficiais em Portugal, dedicaram também, a seu modo
e tempo, atenção a Pascoaes. Os católicos,
quando apareceu o São Paulo, combateram-no ruidosamente,
a ponto de Pascoaes se queixar, por carta a Miguel de Unamuno, hoje
recolhida no Epistolário Ibérico, dos vitupérios.
Depois, com o período do ateísmo de Deus, ou (para
usar a expressão do Duplo Passeio) ateoteísmo,
a revista Brotéria fez-lhe observações
cortantes e ríspidas restrições, mas, de qualquer
modo, mostrou interesse pelos livros de temática religiosa
que ele ia publicando. Esse interesse chegou mesmo, pela voz de
António Dias Magalhães, a diálogo de estima,
com antecedentes na comovente amizade do monge e sacerdote católico
Bernardo de Vasconcelos com Teixeira de Pascoaes. Ambos, Dias de
Magalhães e Bernardo, lhe pediram prefácios para livros
seus (Divina Saudade e Cântico de Amor), que
Pascoaes escreveu. Com a morte de Pascoaes primeiro, e o fim do
salazarismo depois, as reticências mais militantes e agressivas
da revista Brotéria para com o ateoteísmo de
Pascoaes suavizaram-se e a revista prestou, repetidas vezes, sobretudo
com os artigos, as notas e as pesquisas bibliográficas de
Mário Garcia, aluno e assistente de João Mendes, serviço
notável à memória de Pascoaes. É oportuno
assinalar ainda o contributo, através de Arnaldo de Pinho,
Ângelo Alves e Afonso Moreira da Rocha, do Centro Regional
do Porto da Universidade Católica Portuguesa, na difusão
do saudosismo de Pascoaes, com a organização de um
conjunto de iniciativas valiosas em torno do Porto culto e da Renascença
Portuguesa, com destaque para o "Colóquio sobre Teixeira
de Pascoaes" (1995) e para o "Congresso Internacional
de Pensadores Portuenses Contemporâneos" (2001).
Do lado do neo-realismo veio, por intermédio da revista Vértice,
logo após o falecimento do Poeta, um importante e completo
número de homenagem, com colaborações de Manuel
Mendes, Alexandre O'Neill, Ilídio Sardoeira, Óscar
Lopes, preito que se deveu porventura ao apoio que Teixeira de Pascoaes
prestou no fim da vida às campanhas eleitorais e cívicas
da oposição e sobretudo a colaboração
pontual que prestou à Associação Feminina Portuguesa
para a Paz, uma organização próxima do Partido
Comunista Português, fazendo a seu convite, no Porto, em 1
de Junho de 1950, ao lado de Maria Lamas, uma conferência
pacifista. A estes nomes é de justiça acrescentar
Alexandre Pinheiro Torres e Manuel Amaral. Entre pares, forçoso
é destacar Ilídio Sardoeira, que, ainda em vida de
Teixeira de Pascoaes, teceu sobre a sua obra um significativo estudo,
Pascoaes, Um Poeta de Sempre (1951) e foi depois o primeiro
a chamar a atenção, no opúsculo Influência
do Princípio de Incerteza no Pensamento de Pascoaes (1955),
para a importância da moderna Física quântica
no pensamento do ateísmo de Deus. Lembre-se ainda o belo
e trabalhado estudo de Alfredo Margarido, Teixeira de Pascoaes
- A Obra e o Homem (1961), este nas cercanias já do neo-realismo
e no cruzamento com a herança da primeira geração
surrealista portuguesa. Desta herança, no caso excluindo
o resto, veja-se também o inspirado ensaio do poeta António
Barahona, Os Dois Sóis da Meia-Noite (1990), comparando
Camões e Pascoaes.
Jacinto do Prado Coelho, que pela idade tanto podia pertencer à
geração surrealista de Mário Cesariny como
à neo-realista de Óscar Lopes, não pertencendo
a nenhuma, força uma menção à parte,
pela extensa actividade que devotou a Teixeira de Pascoaes. Ainda
muito novo, em 1940 ou 1941, escolheu, na Faculdade de Letras de
Lisboa, sob orientação de Vitorino Nemésio,
a sua obra como tema de dissertação de licenciatura.
Esta deu depois origem ao livro A Poesia de Teixeira de Pascoaes
(1945), que foi praticamente a sua estreia de ensaísta e
investigador, reeditado mais tarde (1999), com todos os estudos
que ao longo de quarenta anos de trabalho consagrou a Pascoaes,
numa iniciativa de Luís Amaro, também ele dedicado
e generoso investigador da obra de Pascoaes, de quem deu a conhecer,
na revista Colóquio-Letras, numerosas cartas inéditas;
do Prado Coelho foi ainda, no rasto do labor bibliográfico
e editorial de Álvaro Bordalo, na "Gazeta do Bibliófilo",
o primeiro editor crítico da obra do Poeta, com a organização,
ao longo de dez anos, das Obras Completas de Teixeira de Pascoaes
(Bertrand, X volumes, 1965-1975), numa vasta e revista compilação
de cerca de trinta livros, que é hoje, com as Obras Completas
(VII volumes, 1929-1932) que o poeta publicou à sua conta,
a edição de referência no estudo de Pascoaes.
A edição da obra de Teixeira de Pascoaes encontrou
depois deste trabalho um apaixonado promotor em Hermínio
Monteiro, director literário da editora Assírio &
Alvim, que, em 1984, criou a colecção Obras de
Teixeira de Pascoaes, e, numa assinalável iniciativa,
aí promoveu a edição comercial de mais de vinte
volumes do autor, cada um deles com exigente apresentação
individualizada (Eugénio de Andrade, António-Pedro
Vasconcelos, José Bento, Fernando Guimarães, Eduardo
Lourenço, Miguel Esteves Cardoso, António M. Feijó,
António Mega Ferreira, Gil de Carvalho, António Fernandes
da Fonseca, José Tolentino Mendonça e por aí
fora). Esta actividade, depois do seu inesperado e prematuro falecimento,
em 2001, do director literário da Assírio & Alvim,
está a ser valiosamente aprofundada por Manuel Rosa e António
Lampreia.
Nos últimos anos, no seio da Universidade portuguesa, mas
com desencontradas afinidades com movimentos que pouco ou nada tiveram
no seu tempo a ver com ela, como o surrealismo ou a Filosofia Portuguesa,
surgiram dissertações policopiadas, de doutoramento
ou não, sobre a obra de Pascoaes (Maria das Graças
Moreira de Sá, Manuel Ferreira Patrício, Jorge Coutinho,
José Carlos de Oliveira Casulo, José Manuel Barros
Dias, António Cândido Franco, Paulo Alexandre Esteves
Borges, Pedro Sinde), que deram posteriormente origem a livros.
O primeiro trabalho deste género - salvando o de José
Marinho em 1925 e o de Jacinto do Prado Coelho, de 1944, a que se
pode acrescentar o elogio académico de Egas Moniz (1953)
e o de Joaquim de Carvalho, Reflexões sobre Teixeira de
Pascoaes (1954) - foi a castigadíssima dissertação
de doutoramento de Mário Garcia, apresentada à Faculdade
de Filosofia de Braga, da Universidade Católica Portuguesa,
e de que resultou o volume Teixeira de Pascoaes. Contribuição
para o Estudo da sua Personalidade e para a Leitura Crítica
da sua Obra (1976)6, que do Prado Coelho considerou,
no tempo, o mais importante trabalho crítico sobre Teixeira
de Pascoaes.
José Augusto Seabra, em afinidade de espírito com
os discípulos mais activos do criacionismo leonardino, fundou,
no Outono de 1980, a revista Nova Renascença, que tomando
por patronos os ainda vivos da primeira Faculdade de Letras do Porto,
arejou na cultura portuguesa saída do 25 de Abril, por cima
do rolo compressor mais próximo, o de católicos e
neo-realistas, as ideias culturais do período fundacional
da Renascença Portuguesa, com inovadora expressão
para o saudosismo de Teixeira de Pascoaes. Foi sob a sua salutar
influência que apareceram, no Porto, os trabalhos de fundo
de Alfredo Ribeiro Santos (1990) e Paulo Samuel (1990), a que se
soma a muito sóbria e fecunda actividade editorial de António
José Queirós nas Edições do Tâmega,
onde apareceram, por sua iniciativa, vários livros de e sobre
Pascoaes, com destaque para as Cartas de Amor atrás
referenciadas e para a colectânea pascoalina de Eugénio
de Andrade, Uma Casa para a Poesia (1990).
Eis o que por cá se arranja, num vislumbre momentâneo,
em termos de prosa, quando de Pascoaes se trata. Ficam de fora os
versos com que sucessivas gerações de líricos
portugueses, de Mário Beirão a Laureano da Silveira,
homenagearam o Poeta, e as interpretações dos artistas
plásticos, por vezes tão ou mais significativas que
as verbais, de Columbano a Emerenciano, de António Carneiro
a Délio Vargas. Faltam apenas indicar, para que tudo fique
provisoriamente próximo do completo, as memórias escritas
dos familiares mais chegados, neste caso a irmã, já
a, Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos (Olhando para
Trás Vejo Pascoaes, 1971), e as sobrinhas Maria do Carvalhal
(Pascoaes, 1977) e Maria José Teixeira de Vasconcellos
(Na Sombra de Pascoaes, 1993 e Pascoaes, 1995), também
antes convocada. A estes testemunhos familiares junto ainda, pela
confidencialidade, e sem prejuízo dos de Thelen e Agustina,
o de Francisco de Athayde Machado de Faria e Maia (A Minha Velha
Pasta, 1937), conterrâneo de Pascoaes coimbrão,
e o de Eduardo de Oliveira (Monólogo, 1957.1963-1983),
filho de médico íntimo da família de Pascoaes,
Vasco de Oliveira, e irmão de Ernesto Veiga de Oliveira.
Fale-se ainda de Pedro Van Zeller, filho de Maria Fernanda de Magalhães
e Menezes Van Zeller, e de Ângelo César, que, com António
Duarte, foi personagem do passeio fabuloso à cividade de
Travassos, na baixa de Montalegre, no livro Duplo Passeio.
António Cândido Franco
2-12 de Agosto de 2002
1 Só apresento,
quer para os livros do autor, traduções incluídas,
quer para os que sobre eles se escreveram a data das primeiras edições.
Para notícia mais miúda consultar Uma Bibliografia
de Teixeira de Pascoaes (António Cândido Franco,
Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2000).
2 Ver, para tudo o que diga respeito
à Renascença, os trabalhos de Alfredo Ribeiro dos
Santos, A Renascença Portuguesa - Um Movimento Cultural
Portuense (Porto, Fundação Eng. António
de Almeida, 1990) e Paulo Samuel, A Renascença Portuguesa
- Um Perfil Documental (Porto, Fundação Eng. António
de Almeida, 1990).
3 Deixo aqui um panorama muito incompleto
das traduções dos livros de Teixeira de Pascoaes e
da bifurcação de ramais, na cultura ibérica
e europeia, que o seu nome e obra abriram. Estão de fora
nesta cronologia, as traduções anteriores, para o
espanhol e francês, que vão de 1920 a 1931, em que
sobressaem os trabalhos do catalão Fernando Maristany (1920
e 1922), do castelhano Valentín de Pedro (1920) e da francesa
Suzanne Jeusse (1930 e 1931)
4 Deste autor, em colaboração
com Afonso Botelho, ou vice-versa, ver ainda a compilação
A Filosofia da Saudade (1986).
5 Assinalem-se, do livro, as traduções
francesa (Fayard, 1998) e espanhola (Anagrama, 1993); indispensável,
quando de Thelen se trata, o manuseamento do volume português
do autor, Cartas a Teixeira de Pascoaes (Assírio &
Alvim, 1997).
6 Passo pelas dissertações
apresentadas na estranja, à espera, de resto, de levantamento
bastante mais completo.
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