Teixeira de Pascoais
   
Para uma cronologia quase só portuguesa de Teixeira de Pascoaes 1 Génese 1877-1895
Primeiras Publicações 1895-1901
A Saudade e o Saudosismo 1903-1911
A Renascença Portuguesa 1912-1932
O Ateísmo de Deus 1934-1952
O Fim sem Fim 14-12-1952
Relance Bibliográfico em Prosa 1952-2002
  GÉNESE
1877-1895
 
 

Nasce, a 2 de Novembro de 1877, numa casa da rua Teixeira de Vasconcellos, no coração de Amarante, Joaquim José Teixeira de Vasconcellos, mais tarde Teixeira de Pascoaes, filho de João Pereira Teixeira de Vasconcellos e de D. Carlota Guedes Monteiro. Do momento do nascimento tirará, na abertura do segundo capítulo do Livro de Memórias (1928), o prognóstico de um horóscopo: "A tarde em que eu nasci (...) nimbou duma auréoloa triste a minha infância, e entranhou-se em mim para sempre." Já antes, na segunda edição de Terra Proibida (1917), nas estâncias de "A Minha História (1877-1901)", a nascença lhe servira de presságio para a vida e para os versos: "Em Novembro nasci por uma tarde triste, / (...) / Nasci no dia eleito da Saudade, / (...) Nasci naquela tarde angustiosa e calma, / (...) / Nasci ao pôr do Sol dum dia de Novembro. / O meu berço o crepúsculo embalou ... / E até parece, às vezes, que me lembro, / Porque essa tarde triste, em mim, ficou."

Muda-se, em 1879 ou 1880, aos dois anos, para a casa de Pascoaes, pertença do pai, na freguesia de São João de Gatão, nos arrabaldes rurais de Amarante, onde passará a infância, que foi, como ele anota no Livro de Memórias, o seu período mitológico, sem história nem cálculo, em que viveu rodeado de criados que eram deuses, visitantes que eram almas ou lendas, e pedintes que faziam as vezes de fantasmas. Brincar era ser sério. A irmã, Maria da Glória, no livro Olhando para trás Vejo Pascoaes (1971), diz que "Pascoaes foi sempre um homem, nunca foi criança", o que é também um outro modo de dizer que ele foi sempre um menino, nunca um adulto. No Livro de Memórias, capítulo terceiro, adianta que ultrapassou os limites do Éden quando pela primeira vez foi para a escola, o que deve ter acontecido por volta de 1884. São duríssimos os termos com que Pascoaes, quer no Livro de Memórias, quer em Uma Fábula (1978), castiga a escola, em particular a amarantina, entre o colégio das primeiras letras e o liceu, onde deve ter permanecido até ao ano lectivo de 1894-5, o do aparecimento público, com as primeiras colaborações poéticas no jornal A Flor do Tâmega. Todos os auto-retratos estudantis de Pascoaes são crudelíssimos; a dor de outrora arrasta-se até ao presente em que é enunciada, como se não conhecesse fim, sublinhando assim a brutalidade inexpiável do pesadelo escolar.

O período da génese de Teixeira de Pascoaes foi o do parto da geração de 90, com o epicentro na cidade do Porto, que vai do Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa do 31 de Janeiro de 1891 (1891) de Sampaio Bruno, e prosa consequente, à poesia em verso de António Nobre e sem verso de Raúl Brandão. As dores desse parto foram as correntes fortes que a geração de 70 agitava na sociedade portuguesa da época, com o suicídio de Antero e a tergiversação de Junqueiro e Eça, com Os Simples (1892) e A Ilustre Casa de Ramires (1897), que seguem o novo gosto, que à falta de outro desígnio apelidamos de neogarrettista. Pelo meio, soldando com eficácia o naturalismo de uns e o sentido do mistério dos outros está, a prosa irrecusávelmente pontifical de Fialho, da Madona de Campo Santo (1882) ao País das Uvas (1893). E isto que aqui se aponta para o período de gestação serve também para a época das primeiras publicações de Teixeira de Pascoaes, toda ela marcada pelo impulso renovador que se seguiu ao Ultimatum de 1890.

 

 
  PRIMEIRAS PUBLICAÇÕES
1895-1901
 
 

Primeira publicação em livro, Embriões [Embryões], em 1895, na Tipografia Industrial do Porto, assinado excepcionalmente com o nome de Joaquim P. Teixeira de Pascoaes e V., definitivamente mudado depois em Teixeira de Pascoaes. Maria da Glória abre o quarto capítulo do seu livro de memórias dizendo que o irmão queimou todos os exemplares que encontrou do livro, o que ele confirma em passagem de Uma Fábula. De qualquer modo, alguns dos versos que Pascoaes publicou de seguida - Belo [Bello] (1896-7), À Minha Alma [Á Minha Alma] (1898), Sempre (1898), Terra Proibida (1899) e À Ventura [Á Ventura], a que se podem acrescentar as Cantigas para o Fado e para as Fogueiras do San João [org. de Augusto Gil e Afonso Lopes Vieira; 1899] e Profecia [com Afonso Lopes Vieira; 1901 (?)] - cheiram aos do seu livro de estreia, a par de outros magistrais, que falam da saudade, onde se respira a segurança da arte, aliada à verdade da criação. Por duas vezes - no prólogo da terceira edição do Sempre (1915) e em O Homem Universal (1937) - regressará aos versos de Belo, para ver neles os cromossomas de toda a sua obra poética posterior.

É o tempo em que Pascoaes troca Tâmega e Douro por Mondego, primeiro para completar, no ano lectivo de 1895-6, o último grau do curso do Liceu e depois para se matricular e frequentar o curso da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, que perfaz, com a magra nota de 11 valores, no ano lectivo de 1900-1901. Dos seis anos lectivos passados em Coimbra ficaram as quatro casas onde viveu e de que nos chegou relato (Rua do Cabido, 11; Rua da Esperança, 23; Rua da Ilha, 12 e Rua dos Estudos, 14), os poetas com quem conviveu e de que deixou testemunho nas memórias (Afonso Lopes Vieira, Augusto Gil, Fausto Guedes Teixeira, António Correia de Oliveira, João Lúcio), a juvenília quase abundante que deu a imprimir, as cartas de amor que escreveu a Maria Fernanda de Magalhães e Meneses (depois Van Zeller), a notícia do fado do Hilário e da boémia das tascas e serenatas, que foi para ele o mundo mitológico da sua infância redescoberto na idade tardia do diploma. Pascoaes confessou ter convivido na sua primeira idade, quando as criadas lhe contavam fábulas e os pedintes recitavam a meia voz orações, com deuses telúricos, mas, nas margens do Mondego, a ouvir o Hilário, por entre fadistas e prostitutas, à luz da lua, num ambiente morno e moçárabe, redescobriu o mesmo universo original, talvez mais alvo e aquático, com anjos de buço loiro e sereias de carne pálida.

Calado e cogitativo, muito metido consigo e com os versos, Pascoaes abriu, porém, os olhos da alma a Coimbra; viu, num clarão interior, a sua essência antiga e primeira por isso, sempre que quis, a pintou magistralmente. Quarenta anos depois, no livro O Penitente (1942), gravou, a ácido reactivo, esta espantosa água-forte: " O que há de original em Coimbra, e se nos grava na memória, é a exótica mistura de cheiro a lente e a bafio com o cheiro a iscas e a fêmea." (cap. V)

Coimbra foi um puro acidente intervalar, a que Pascoaes se adaptou menos por via do regulamento que da boémia. O autor de Belo tinha nos seus primeiros versos a cinza do granito portuense mas a estúrdia meridional apareceu-lhe como uma divindade quente e lunar, própria dos jardins encantados, que ele cultuou pela vida fora, mesmo que à distância, com a seriedade luminosa do riso, até às derradeiras cenas do seu livro Duplo Passeio (1942), passadas na embriaguez de uma discoteca.

 
  A SAUDADE E O SAUDOSISMO
1903-1911
 
 

Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno, centrados no vértice cimeiro do Porto, lapidam, na transição do século XIX para o XX, os verdadeiros diamantes da sua obra, que serão apresentados, não sem surpresa e incompreensão, entre 1902 e 1904. Estou a falar de livros como Oração ao Pão e Oração à Luz, esta última tida em conta pelo Fernando Pessoa sensacionista de 1916 como "the greatest metaphysico-poetical achievement since Wordsworth's great Ode", e ainda de livros como A Ideia de Deus e O Encoberto, estudo lento mas sólido, que ultrapassou de vez as teses culturais portuguesas formadas no ambiente mimético das guerras da Restauração de 1640, que levaram ao sempre desde então repetido complexo de inferioridade português.

Teixeira de Pascoaes, livre do Mondego, de regresso ao ângulo natal, que vai do Tâmega ao Douro, arranca por esta altura, aos vinte e cinco anos, para uma obra ímpar, toda de igual importância, que só irá terminar, com a sua morte, cinquenta anos depois, mas que é possível mapear segundo períodos circunstanciais da sua vida de escritor ou da vida pública do país. Este primeiro, atravessando sem se queimar os últimos anos da monarquia brigantina, com regicídio pelo meio, é o prolegómeno daquilo que virá a ser a Renascença Portuguesa, colectividade social e cultural fundada em 1911. A originalidade que a obra de Teixeira de Pascoaes apresenta nos anos que vão de 1904 a 1911 é definitiva, assim como a segurança artística que evidencia é permanente.

A obra que então publica - Jesus e Pã [Jesus e Pan] (1903); Para a Luz (1904); Vida Etérea [Vida Etherea] (1906); As Sombras (1907); Senhora da Noite (1909) e Marânus[Marános] (1911) - é a que melhor acompanha na época as grandes realizações coalescentes de Junqueiro e Bruno. O mesmo Fernando Pessoa que se maravilhou com a Oração de Junqueiro, tomou um poema da mesma época de Pascoaes, falando da saudade, a "Elegia" de Vida Etérea (depois conhecida e dada à estampa com o nome, Elegia do Amor), como uma realização que lhe era superior. Se a obra poética de Pascoaes fosse apenas aquilo que ele deu a lume entre 1903 e 1911, não deixava de ser o monumento que é. Para além da arte e da singularidade, é visível nesta época uma desenvoltura surpreendente de pensamento, patente na polémica em prosa que Januário Leite [J. L.] mantém com ele no portuense jornal anarquista A Vida (1907), mas que se alarga sem defeitos a quase toda a obra em verso então publicada, repleta de inquietações sociais e reflexões espirituais.

O Porto, para onde Teixeira de Pascoaes foi advogar em 1906 (Rua das Taipas), é, por esta altura, a cidade pertinaz de Sampaio Bruno, inspirada por um dinamismo histórico e religioso, e agitada por uma aura de vitalidade messiânica. A cidade, fazendo render a memória heróica do cerco absolutista de 1832-3, protagoniza conscientemente um esforço de evolução, que faz dela a capital moral do país. Foi nesse Porto republicano e libertário, que misturava a crescente combatividade dos operários manuais de oficina com os restos da rebelião militar e poética do 31 de Janeiro, que, a abrir o século XX, se deu o encontro de Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra,. Jaime Cortesão, Álvaro Pinto, Augusto Casimiro, António Carneiro e Cristiano de Carvalho, que serão, com António Sérgio, Raúl Proença e Câmara Reis, depois de várias realizações conjuntas (revista Nova Silva e jornal A Vida), a cabeça, o tronco e os membros da Renascença Portuguesa.

 
  A RENASCENÇA PORTUGUESA
1912-1932
 
 

Fundada a 27 de Agosto de 1911, no Choupal de Coimbra, entre o Tejo e o Douro, A Renascença Portuguesa foi o lugar franco de convívio de duas tendências desencontradas, a poético-filosófica de Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra e a científico-pedagógica de António Sérgio e Raúl Proença; foi aí, no espaço desse diálogo, que o movimento revolucionário que conduziu ao 5 de Outubro de 1910 se salvou de ser apenas mais um batalhão de fuzilamento ou mais uma onda de arrivistas. A Renascença Portuguesa é, além de outras coisas, o corpo central da cultura portuguesa do século XX, raiz e caule de onde depois divergiram integralistas e seareiros, braçadas que deixara pelo século frondosa descendência e tiveram nele alternada e oposta influência. A Renascença Portuguesa, que escolheu como patronos Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno, duas figuras que fizeram a transição da geração de 70 para a de 90, viveu enquanto a primeira República durou, já que a liberdade lhe era, por tudo, ingénita; o último número do orgão da associação, a revista A Águia, foi publicado em Junho de 1932 (3º número da Vª Série)2 e pode ser tido como o último acto da Renascença Portuguesa. A vida do colectivo foi, ainda assim, suficientemente longa e profícua, com uma colecção gigantesca de publicações (múltipla actividade editorial e saída regular da revista A Águia, ao longo de mais vinte anos) e, no quadro da Faculdade de Letras do Porto fundada por Leonardo em 1919, com o parto de uma segunda geração de renascentes, tão brilhante e interveniente como a primeira, Agostinho da Silva, Adolfo Casais Monteiro (que chegou, em 1928-9, a dirigir a A Águia), Sant'Ana Dionísio, José Marinho, Álvaro Ribeiro, Delfim Santos, António Salgado Júnior, de que naturalmente se aproximam Américo Durão, José Gomes Ferreira e Domingos Monteiro, que não foram, com a excepção liceal de Gomes Ferreira (cujo pai, Alexandre Ferreira, colaborara já com A Águia), alunos de Leonardo Coimbra, mas também eles, para lá do concurso mais ou menos esporádico que emprestaram à publicação da Renascença Portuguesa, aparecem formados pela operatividade da primeira geração renascente, com especial destaque para a dupla Pascoaes-Leonardo. A que , de modo seu, deram seguimento.

Neste período a obra de Pascoaes aprofunda as tendências em verso antes manifestadas, mostrando avantajada destreza artística no verso narrativo-dramático (Regresso ao Paraíso, 1912; O Doido e a Morte, 1913; D. Carlos, 1925; O Pobre Tolo [versão em verso], 1931) e mestria amadurecida no lírico (Elegias, 1913; Miss Cavell, 1915; Londres, 1917; Elegia da Solidão, 1920; Cantos Indecisos, 1921; Cânticos, 1925); diversifica ainda a prosa de ideias, que, sem deixar o domínio da criação, se apresentou combativamente apelativa (O Espírito Lusitano e o Saudosismo, 1932; O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa, 1913; A Era Lusíada, 1914) ou propositadamente pedagógica (Arte de Ser Português, 1915; Os Poetas Lusíadas, 1919; Conferência, 1921; A Caridade, 1922); inicia uma poesia em prosa (Verbo Escuro, 1914; A Beira num Relâmpago, 1916; O Bailado, 1921; A Nossa Fome, 1923; O Pobre Tolo [versão em prosa], 1924; Jesus Cristo em Lisboa [em colaboração com Raul Brandão] 1927; Livro de Memórias, 1928), comparável só à do autor do Húmus (1917), que será cada vez, pela adequação à rapidez e intensidade do seu pensamento por imagético, a expressão usada por Pascoaes.

A cultura portuguesa deste período foi, pelo menos até à fundação da Seara Nova, em 1921, marcada pela Renascença Portuguesa e pela figura central de Teixeira de Pascoaes, director literário da revista A Águia (1912-1926) e teorizador, no sentido poético-visionário, do saudosismo, de que ainda se encontram importantes segmentos em Os Poetas Lusíadas. Trata-se de um período culturalmente riquíssimo, em que tudo, desde o Integralismo Lusitano ao Orpheu, se faz por acção ou reacção à Renascença Portuguesa e ao saudosismo, que permanecem os factos matriciais deste período. Depois da Seara Nova, que no dizer de Pascoaes foi o voo da Águia para Lisboa, onde encheu o papo no Terreiro do Paço, a cultura livre dividiu-se por dois cursos e o protagonismo do Porto empalideceu, até quase desaparecer com o extermínio da revolução de Fevereiro de 1927 contra a ditadura militar e a extinção da Faculdade de Letras do Porto pelo proto-salazarismo de 1931-2.

 
  O ATEÍSMO DE DEUS
1934-1952
 
 

Com a Constituição Portuguesa de 1933 cai, durante quase meio século, sobre a sociedade portuguesa, uma cortina de cinza e silêncio. É o reposteiro pesado e escuro, a cheirar mal, da censura ao livro e à Imprensa, que deixou mais um rasto de boçalidade e medo em sucessivas gerações de portugueses. Teixeira de Pascoaes resiste ao estado de sítio interno e externo, com o afrontamento civil em Espanha e a generalização da guerra à Europa, recusando em 1933, uma condecoração de Estado oferecida pelo regímen da nova Constituição (o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago), recebendo, na sua casa de São João de Gatão, de Setembro de 1939 a Janeiro de 1947, um casal de foragidos alemães, escapados ao nazismo, com quem estava em contacto desde Junho de 1935, Albert Vigoleis Thelen e Beatrice Bruckner, e fazendo, em 1949, contra o cesarismo autocrata de Oliveira Salazar, campanha pública a favor da candidatura presidencial de Norton de Matos.

Boa parte da obra poética de Teixeira de Pascoaes dada á estampa neste período plasma-se naquela prosa escura e luminosa, de grande agilidade sintáctica, cuja fonte mais próxima data de 1912 ou 1914; do boleio da sua frase ressalta um inusitado equilíbrio de elementos díspares e antagónicos, todos eles harmoniosamente embutidos no corpo do texto. Essa prosa mostra-se, pela liberdade intrínseca com que trabalha as suas imagens, a melhor resposta a uma censura de imediatismos ideológicos. É a partir do ateísmo de Deus que o texto, narrativamente biográfico ou enunciativamente digressivo, se desenvolve, mostrando-se ao mesmo tempo secreto e pródigo.

Falamos da prosa caudalosa dos romances (alguns ainda hoje inéditos: O Senhor Fulano; O Anjo e Bruxa; este último em dois volumes) e das biografias (São Paulo, 1934; São Jerónimo e a Trovoada, 1936; Napoleão, 1940; O Penitente (Camilo Castelo Branco), 1942; Duplo Passeio, 1942; Santo Agostinho, 1945; O Empecido, 1950; Dois Jornalistas, 1952), a que se pode ainda acrescentar a prosa enuncitiva dos textos críticos ou de ideias, cada vez mais subtil e capciosa, desinteressada que se mostra de qualquer intervencionismo momentâneo ou justificação exterior (O Homem Universal, 1937; Guerra Junqueiro, 1950; Drama Junqueiriano, 1950; Pro Paz, 1950; António Carneiro, 1952). A este corpo maior é necessário anexar os raros versos que o autor deu por então à estampa e que tendem a apresentar curiosamente as mesmas características incomputáveis da sua prosa (Painel, 1935; Versos Pobres, 1949), com uma inclinação irrecusável para o versilibrismo de mais ampla respiração, que plenamente se preencherá depois nos versos escritos à beira do fim (Últimos Versos, 1953 e Versos Brancos, estes ainda hoje inéditos).

A primitiva geração da Renascença Portuguesa, que dera o laço no Porto operário de 1906, e que, arrastando Sérgio e Proença, aparece como a primeira geração cultural portuguesa do século XX, foi centrifugada pela ditadura militar, com o desterro de Jaime Cortesão e Augusto Casimiro, e depois, no salazarismo, com o desaparecimento de Teixeira Rego (1934) e Leonardo Coimbra (1936), o afastamento para a semi-clandestinidade de Cristiano de Carvalho (que, conta-se, deu guarida em Matosinhos a Trotsky), a apostasia igual a si mesmo de Álvaro Pinto e a solidão cada vez mais escondida e cósmica de Teixeira de Pascoaes, retirado nos ermos de Gatão ou de Travanca do Monte, nas faldas do Marão, alimentado a castanha, como Thoreau em Walden ou São Jerónimo no deserto da Cálcida.

A cultura portuguesa desses anos aparece policiada por uma censura difusa, mas apertadíssima, que deixa apenas à superfície os exemplos que decorriam do Integralismo Lusitano, onde o salazarismo bebia a sua seiva, ou os do seu rival contrário, o movimento neo-realista, eufemismo sofrível para realismo socialista de orientação estalinista, que, a partir da guerra civil de Espanha, se torna insaciável e devorador. Nas franjas, andam aparentados de seareiros e futuristas, com um Almada e um Ferro atraídos por Oliveira Salazar, e um Abel Salazar, médico distinto da oposição ao Estado Novo, instituindo, por volta de 1935, na revista portuense Pensamento, uma histologia do literário, que põe gratuitamente a ciência, sobremodo a psiquiátrica, ao serviço da normalização da arte e dos artistas. Escapam a este clima de compressão os da revista Presença, onde os discípulos de Leonardo Coimbra (Adolfo Casais Monteiro e José Marinho) combatem na primeira linha e nas páginas da qual surge Eudoro de Sousa, e sobretudo os surrealistas que aparecerão na década de 40 e, com Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Alexandre O'Neill, Cruzeiro Seixas, Mário Henrique Leiria, Pedro Oom e Luiz Pacheco, se tornarão na corrente de ar livre e fresco que foi possível respirar na sociedade portuguesa da transição da primeira metade do século XX para a segunda. António Maria Lisboa elogiou em carta a obra e a personalidade de Teixeira de Pascoaes e lamentou não ter a possibilidade de o conhecer; Mário Cesariny subiu, por sua vez, em 1950, a Amarante, para ouvir uma conferência que Pascoaes dava sobre Guerra Junqueiro, no Teatro Amarantino, e a partir daí não mais deixou de frequentar a sua poesia, que, vinte e dois anos depois, quando magnanimamente a antologiou, considerou superior à de Fernando Pessoa.

Neste período, de 1935 a 1950, Teixeira de Pascoaes, desterrado, criticado sem rodeios por Oliveira Salazar, escrevendo uma obra quase secreta sobre o ateísmo de Deus, tornou-se, com o romancista Ferreira de Castro, o escritor português mais traduzido nas línguas europeias: São Paulo para espanhol (1935), para holandês (1937), para alemão (1938), para húngaro (1943); São Jerónimo para holandês (1939), para alemão (1941); Napoleão para espanhol (1946), para holandês (1950); Verbo Escuro para holandês (1946), para alemão (1949); Regresso ao Paraíso para checo (1936)3. Os principais tradutores foram o poeta holandês Hendrick Marsman, homicidado em 1940 quando fugia da Holanda recém-ocupada para Amarante, e o escritor alemão Albert Vigoleis Thelen, que se escondeu durante quase oito anos em Gatão, e foi quem melhor compreendeu e decifrou a saudade de Teixeira de Pascoaes.

 
  O FIM SEM FIM
14-12-1952
 
 

Teixeira de Pascoaes adoeceu gravemente dos pulmões em finais de Outubro de 1952, foi internado na Ordem do Carmo, Porto, a 28 de Novembro, regressou à sua casa de São João de Gatão nos primeiros dias de Dezembro e aí faleceu a 14 de Dezembro de 1952, depois de vinte horas de silêncio e imobilidade, sem sinais de sofrimento, segundo o testemunho da sua sobrinha Maria José no livro Na Sombra de Pascoaes-Fotobiografia (1993). Foi assim que Pascoaes sonhou a morte em vida, a morte da sua vida, o fim sem fim, igual ao Deus sem Deus do seu pensamento hagiomáquico, quando deste modo a cantou no soneto "Hora Final", que fecha o livro Terra Proibida: "Como seria bom morrer assim…/ Morrer, como a paisagem desfalece. / Morrer, quase a sorrir, devagarinho". As últimas palavras que a sobrinha lhe ouviu, muitas horas antes do passamento, foram: "- Até amanhã", mas o epitáfio para esse momento escreveu-o ele e está hoje, em letras despidas e simples, sobre a sua campa, no cemiteriozinho de Gatão, eternizando, naquela terra humilde e esquecida, o momento do seu fim e da sua cinza: "Apagado de tanta luz que deu / Frio de tanto calor que derramou." O corpo foi metido num caixão despojado e pobre de pinho, feito de um pinheiro em forma de lira, que Pascoaes, fazia tempo, havia escolhido para esse fim, e lá ficou para sempre, nesse esquife de Orfeu e São Francisco. Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos nas já referidas memórias, Olhando para Trás Vejo Pascoaes, aponta que, no dia 16 de Dezembro, além dos familiares mais chegados, dos parentes e da gente anónima do lugar, acompanharam o corpo de Pascoaes ao cemitério Mário Beirão, Anrique Paço d'Arcos, António Duarte, que lhe fez a mão e a máscara, Eugénio de Andrade, Carlos Carneiro, Eduardo e Ernesto Veiga de Oliveira e outros que não especifica.

A seguir à sua morte foram dados à estampa, em verso e prosa, alguns inéditos dos anos do fim: Últimos Versos (1953), A Minha Cartilha (1954), João Lúcio (1973), A Velhice do Poeta (duas versões: 1973, 1989), Da Saudade (1973), Uma Fábula (o advogado e o poeta) (1978). Apareceram, por outro lado, vários epistolários, sobretudo na última década do século XX, alusivos a períodos em geral da juventude ou primeira maturidade de Pascoaes: Epistolário Ibérico -Cartas de Pascoaes e Unamuno (org. de Joaquim de Montezuma de Carvalho, 1957), "Correspondência Familiar" (in Olhando para Trás Vejo Pascoaes, 1971), Uma Amizade - Cartas de Pascoaes a Anrique Paço d'Arcos (org. de Maria do Carmo Paço d'Arcos, 1993), Cartas de Pascoaes e Cebreiro (Epistolário Galaico-Português) (1993), Raul Brandão - Teixeira de Pascoaes. Correspondência (org. António Marques Vilhena e Maria Emília Marques Mano, 1994), Cartas de Amor (1996), Os Intelectuais Galegos e Teixeira de Pascoaes. Epistolário (org. Eloísa Alvarez, 1999), a que se pode acrescentar o livro de Albert Vigoleis Thelen, Cartas a Teixeira de Pascoaes[1935-1952] (1997).

Foram ainda publicados, de forma dispersa, mas regular e repetida, em jornais diários ou revistas, alguns dos Versos Brancos (que tinham sido anunciados em Dois Jornalistas como "Poemas dos 70 anos"), passagens do livro Cartas a uma Poetisa (dirigidas à escritora Cacilda Pinto Coelho de Castro), que parece ter sido o primeiro livro de prosa do autor, dois fragmentos de Fernão Lopes, texto coetâneo das grandes biografias pascoesianas, e um curto extracto de cada um dos dois romances inéditos de Pascoaes acima nomeados. Foram ainda dados a público textos soltos, alguns de grande importância, como esse "A Alma Ibérica" (1971), que devia ter servido de exórdio às edições do Epistolário Ibérico, mas infelizmente não serviu, e algumas cartas não recolhidas em livro (a Bernardo de Vasconcelos, Afonso Duarte, Sant'Ana Dionísio, Joaquim de Montezuma de Carvalho, António Carneiro, Marques Gastão, Suzanne Jeusse, Ribera i Rovira, António Dias de Magalhães, Jaime Cortesão, Mário Beirão, Fernando Pessoa, Leonor Dagge, Leonardo Coimbra, José Osório de Oliveira e outros). Em 1972, na antologia Poesia de Teixeira de Pascoaes (org. Mário Cesariny), surgiu, em todo o seu mistério e simplicidade, a pintura do autor.

Ainda assim, ao arrepio destas milhares e milhares de páginas, esperam publicação alguns volumes, de que só se conhecem, a bem dizer, uma ou duas linhas - Cartas a uma Poetisa, Versos Brancos, Fernão Lopes, O Senhor Fulano, O Anjo e a Bruxa - e aguardam reunião em livro epistolários diversos.

 
  RELANCE BIBLIOGRÁFICO EM PROSA
1952-2002
 
 

Entre os trabalhos em prosa dedicados à obra de Teixeira de Pascoaes são de destacar, logo de entrada, os da segunda e última geração da Renascença Portuguesa, a dos discípulos de Leonardo Coimbra, que dirigiram a revista A Águia, e outras publicações congéneres, entre 1929-1932. Sant'Ana Dionísio dedicou-lhe um dos primeiros livros com verdadeiro interesse, O Poeta essa Ave Metafísica (1953) e José Marinho, além da subtilíssima atenção que lhe presta em capítulos de livros seus (v. "Filosofia da Saudade e Filosofia Profética", in Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo, 1976), fez a sua tese de licenciatura, em 1925, com a orientação mais que provável de Leonardo Coimbra, sobre a poesia de Teixeira de Pascoaes, Ensaio sobre a Obra de Teixeira de Pascoaes. As noções finais do pensamento de Marinho, expostas na Teoria do Ser e da Verdade (1961), ganham em ser confrontadas com as de Pascoaes do ateísmo de Deus. Os restantes, de Agostinho a Casais, sem esquecer Gomes Ferreira e Domingos Monteiro, a que sem receio se somam os presencistas mais característicos (José Régio e Gaspar Simões), em menor ou maior abertura, deixaram sobre a obra de Pascoaes o seu contributo de estudiosos, de intérpretes, de admiradores. A estes estudos juntam-se, com o memo diversificado interesse, os dos continuadores desta geração, que foi em extensão a da Filosofia Portuguesa, Dalila Pereira da Costa (Pascoaes d'As Sombras à Senhora da Noite, 1992), António Quadros, Orlando Vitorino, Afonso Botelho (Saudosismo como Movimento, 1960; Da Saudade ao Saudosismo, 1990; Saudade, Regresso à Origem, 1997), António Telmo, António Braz Teixeira (Deus, o Mal e a Saudade, 1993)4; Pinharanda Gomes [A Renascença Portuguesa, 1984; e ainda a generosa reunião dos textos pascoaesianos de A Saudade e o Saudosimo (Dispersos e Opúsculos), 1988].

De seguida, os surrealistas e singularmente Mário Cesariny, que foi a Amarante ouvir Pascoaes, dele falou entusiasticamente aos amigos, antologiou-lhe por duas vezes a obra (Aforismos, 1972; Poesia de Teixeira de Pascoaes, 1972), esteve na origem da publicação do epistolário de Thelen, de que anotou cópia manuscrita, e não se ensombrou de dizer, contra os ventos fortes e as marés vivas do tempo, que eram os do modernismo de escola e do que dele começava a sobreviver, que esta poesia apagava a de Fernando Pessoa. As afirmações de Mário Cesariny sobra a poesia de Pascoaes - "Teixeira de Pascoaes, poeta bem mais importante, quanto a nós, do que Fernando Pessoa." (1973) - são, além de modelo invejável de liberdade, de quem ousa dizer o que pensa, sem censura, das que deixam consequências irreversíveis no jogo da chamada história literária portuguesa, pois subvertem saudavelmente a mecânica corrente do funcionamento da dita e destabilizam os juízos que ela sempre nos ofereceu como certezas indiscutíveis. Na compressão em que foi, ao longo da sua aventura, obrigado a viver com os seus amigos, Cesariny encontrou em Teixeira de Pascoaes a realidade delirante absoluta, mais velha que a origem, eternamente se rindo da ilusão do mundo e da sua seriedade. Por cima de futurismos e modernismos lisboetas, todos muito enfatuadamente epocais, à la page, o saudosismo de Pascoaes, arrancando aos campos virgens da consciência e do mundo o brilho da lua e a cintilação estranhamente outra das estrelas, deu a mão ao surrealismo de Cesariny, garantindo-lhe uma antecedência sem pretensões de corrida às novidades de superfície. A conversa de Cesariny com Teixeira de Pascoaes, o abraço dos dois, na cinza do luar, é porventura a grande e mais luminosa gargalhada da cultura poética portuguesa do século XX.

Agora, o escritor Albert Vigoleis Thelen, que leu a tradução espanhola do São Paulo, em Maiorca, no ano de 1935, e se tornou depois disso no mais versado conhecedor da sua literatura, além de ter sido aquele que mais fez por ela, promovendo-a e dando-a a ler e estudar em países como a Holanda, a Alemanha, a Áustria e a Suiça. Thelen e Beatrice abandonaram a Alemanha em 1931, no momento da ascenção do nazismo, viveram seis meses em Amesterdão e mudaram-se depois para a ilha de Maiorca, em Espanha, onde viveram até Setembro de 1936, momento em que fugiram, num cruzador britânico, da ilha, que aderira ao levantamento fascizante de Julho. Na primeira metade do ano de 1935, Thelen descobre na casa de banho de Juan Sureda de Bimet, pai de Pedro Sureda, a quem Beatrice dava aulas de inglês, um livro clandestino que este aristocrata arruinado guardava num esconderijo ao pé da retrete. O livro era a tradução espanhola, com prefácio de Miguel de Unamuno, do São Paulo de Teixeira de Pascoaes. Foi assim, nesta caricata posição, que Thelen o leu. Surpreendido pela revelação, escreveu ao autor, manifestando-lhe um interesse inconcutível em verter o livro para a sua língua materna. Mais tarde, o seu romance Die Insel des Zweiten Gesichts ("A Ilha do Segundo Rosto", 1953)5 tornou-se o mais valioso elemento bibliográfico sobre a obra e a personalidade de Teixeira de Pascoaes, com quem conviveu diariamente durante os quase oito anos em que se escondeu em São João de Gatão. Thelen estreou-se, enquanto escritor, com um livro de versos que é o roteiro da casa de Pascoaes, Schloss Pascoaes (1942), e chegou a escrever uma biografia de Pascoaes, Die Gottlosigkeit Gott ("O Ateísmo de Deus"), que se perdeu, mas de que se conhecem dois ou três fragmentos. Olívio Caeiro, que foi o primeiro estudioso português da criação de Thelen, antologiando poemas seus na silva Oito Séculos de Poesia Alemã (1983), traduziu-os para português, em conjunto com os versos de estreia, num livro capital, Albert Vigoleis Thelen no Solar de Pascoaes (1990). João Barrento, do lado português, e Jürgen Pütz, do alemão, mantêm vivo o interesse pelo diálogo Pascoaes-Thelen, ou Thelen-Pascoaes, dando seguimento e saída aos estudos de Caeiro, que morreu em 1997. Agustina Bessa-Luís tratou a estadia de Thelen em Pascoaes no romance O Susto (1958), que Jorge de Sena, na sua antologia e estudo A Poesia de Teixeira de Pascoaes (1982), outro marco deste relance bibliográfico em prosa, considera uma biografia de Teixeira de Pascoaes.

Católicos e neo-realistas, que foram no salazarismo as duas culturas oficiais em Portugal, dedicaram também, a seu modo e tempo, atenção a Pascoaes. Os católicos, quando apareceu o São Paulo, combateram-no ruidosamente, a ponto de Pascoaes se queixar, por carta a Miguel de Unamuno, hoje recolhida no Epistolário Ibérico, dos vitupérios. Depois, com o período do ateísmo de Deus, ou (para usar a expressão do Duplo Passeio) ateoteísmo, a revista Brotéria fez-lhe observações cortantes e ríspidas restrições, mas, de qualquer modo, mostrou interesse pelos livros de temática religiosa que ele ia publicando. Esse interesse chegou mesmo, pela voz de António Dias Magalhães, a diálogo de estima, com antecedentes na comovente amizade do monge e sacerdote católico Bernardo de Vasconcelos com Teixeira de Pascoaes. Ambos, Dias de Magalhães e Bernardo, lhe pediram prefácios para livros seus (Divina Saudade e Cântico de Amor), que Pascoaes escreveu. Com a morte de Pascoaes primeiro, e o fim do salazarismo depois, as reticências mais militantes e agressivas da revista Brotéria para com o ateoteísmo de Pascoaes suavizaram-se e a revista prestou, repetidas vezes, sobretudo com os artigos, as notas e as pesquisas bibliográficas de Mário Garcia, aluno e assistente de João Mendes, serviço notável à memória de Pascoaes. É oportuno assinalar ainda o contributo, através de Arnaldo de Pinho, Ângelo Alves e Afonso Moreira da Rocha, do Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa, na difusão do saudosismo de Pascoaes, com a organização de um conjunto de iniciativas valiosas em torno do Porto culto e da Renascença Portuguesa, com destaque para o "Colóquio sobre Teixeira de Pascoaes" (1995) e para o "Congresso Internacional de Pensadores Portuenses Contemporâneos" (2001).

Do lado do neo-realismo veio, por intermédio da revista Vértice, logo após o falecimento do Poeta, um importante e completo número de homenagem, com colaborações de Manuel Mendes, Alexandre O'Neill, Ilídio Sardoeira, Óscar Lopes, preito que se deveu porventura ao apoio que Teixeira de Pascoaes prestou no fim da vida às campanhas eleitorais e cívicas da oposição e sobretudo a colaboração pontual que prestou à Associação Feminina Portuguesa para a Paz, uma organização próxima do Partido Comunista Português, fazendo a seu convite, no Porto, em 1 de Junho de 1950, ao lado de Maria Lamas, uma conferência pacifista. A estes nomes é de justiça acrescentar Alexandre Pinheiro Torres e Manuel Amaral. Entre pares, forçoso é destacar Ilídio Sardoeira, que, ainda em vida de Teixeira de Pascoaes, teceu sobre a sua obra um significativo estudo, Pascoaes, Um Poeta de Sempre (1951) e foi depois o primeiro a chamar a atenção, no opúsculo Influência do Princípio de Incerteza no Pensamento de Pascoaes (1955), para a importância da moderna Física quântica no pensamento do ateísmo de Deus. Lembre-se ainda o belo e trabalhado estudo de Alfredo Margarido, Teixeira de Pascoaes - A Obra e o Homem (1961), este nas cercanias já do neo-realismo e no cruzamento com a herança da primeira geração surrealista portuguesa. Desta herança, no caso excluindo o resto, veja-se também o inspirado ensaio do poeta António Barahona, Os Dois Sóis da Meia-Noite (1990), comparando Camões e Pascoaes.

Jacinto do Prado Coelho, que pela idade tanto podia pertencer à geração surrealista de Mário Cesariny como à neo-realista de Óscar Lopes, não pertencendo a nenhuma, força uma menção à parte, pela extensa actividade que devotou a Teixeira de Pascoaes. Ainda muito novo, em 1940 ou 1941, escolheu, na Faculdade de Letras de Lisboa, sob orientação de Vitorino Nemésio, a sua obra como tema de dissertação de licenciatura. Esta deu depois origem ao livro A Poesia de Teixeira de Pascoaes (1945), que foi praticamente a sua estreia de ensaísta e investigador, reeditado mais tarde (1999), com todos os estudos que ao longo de quarenta anos de trabalho consagrou a Pascoaes, numa iniciativa de Luís Amaro, também ele dedicado e generoso investigador da obra de Pascoaes, de quem deu a conhecer, na revista Colóquio-Letras, numerosas cartas inéditas; do Prado Coelho foi ainda, no rasto do labor bibliográfico e editorial de Álvaro Bordalo, na "Gazeta do Bibliófilo", o primeiro editor crítico da obra do Poeta, com a organização, ao longo de dez anos, das Obras Completas de Teixeira de Pascoaes (Bertrand, X volumes, 1965-1975), numa vasta e revista compilação de cerca de trinta livros, que é hoje, com as Obras Completas (VII volumes, 1929-1932) que o poeta publicou à sua conta, a edição de referência no estudo de Pascoaes.

A edição da obra de Teixeira de Pascoaes encontrou depois deste trabalho um apaixonado promotor em Hermínio Monteiro, director literário da editora Assírio & Alvim, que, em 1984, criou a colecção Obras de Teixeira de Pascoaes, e, numa assinalável iniciativa, aí promoveu a edição comercial de mais de vinte volumes do autor, cada um deles com exigente apresentação individualizada (Eugénio de Andrade, António-Pedro Vasconcelos, José Bento, Fernando Guimarães, Eduardo Lourenço, Miguel Esteves Cardoso, António M. Feijó, António Mega Ferreira, Gil de Carvalho, António Fernandes da Fonseca, José Tolentino Mendonça e por aí fora). Esta actividade, depois do seu inesperado e prematuro falecimento, em 2001, do director literário da Assírio & Alvim, está a ser valiosamente aprofundada por Manuel Rosa e António Lampreia.

Nos últimos anos, no seio da Universidade portuguesa, mas com desencontradas afinidades com movimentos que pouco ou nada tiveram no seu tempo a ver com ela, como o surrealismo ou a Filosofia Portuguesa, surgiram dissertações policopiadas, de doutoramento ou não, sobre a obra de Pascoaes (Maria das Graças Moreira de Sá, Manuel Ferreira Patrício, Jorge Coutinho, José Carlos de Oliveira Casulo, José Manuel Barros Dias, António Cândido Franco, Paulo Alexandre Esteves Borges, Pedro Sinde), que deram posteriormente origem a livros. O primeiro trabalho deste género - salvando o de José Marinho em 1925 e o de Jacinto do Prado Coelho, de 1944, a que se pode acrescentar o elogio académico de Egas Moniz (1953) e o de Joaquim de Carvalho, Reflexões sobre Teixeira de Pascoaes (1954) - foi a castigadíssima dissertação de doutoramento de Mário Garcia, apresentada à Faculdade de Filosofia de Braga, da Universidade Católica Portuguesa, e de que resultou o volume Teixeira de Pascoaes. Contribuição para o Estudo da sua Personalidade e para a Leitura Crítica da sua Obra (1976)6, que do Prado Coelho considerou, no tempo, o mais importante trabalho crítico sobre Teixeira de Pascoaes.

José Augusto Seabra, em afinidade de espírito com os discípulos mais activos do criacionismo leonardino, fundou, no Outono de 1980, a revista Nova Renascença, que tomando por patronos os ainda vivos da primeira Faculdade de Letras do Porto, arejou na cultura portuguesa saída do 25 de Abril, por cima do rolo compressor mais próximo, o de católicos e neo-realistas, as ideias culturais do período fundacional da Renascença Portuguesa, com inovadora expressão para o saudosismo de Teixeira de Pascoaes. Foi sob a sua salutar influência que apareceram, no Porto, os trabalhos de fundo de Alfredo Ribeiro Santos (1990) e Paulo Samuel (1990), a que se soma a muito sóbria e fecunda actividade editorial de António José Queirós nas Edições do Tâmega, onde apareceram, por sua iniciativa, vários livros de e sobre Pascoaes, com destaque para as Cartas de Amor atrás referenciadas e para a colectânea pascoalina de Eugénio de Andrade, Uma Casa para a Poesia (1990).

Eis o que por cá se arranja, num vislumbre momentâneo, em termos de prosa, quando de Pascoaes se trata. Ficam de fora os versos com que sucessivas gerações de líricos portugueses, de Mário Beirão a Laureano da Silveira, homenagearam o Poeta, e as interpretações dos artistas plásticos, por vezes tão ou mais significativas que as verbais, de Columbano a Emerenciano, de António Carneiro a Délio Vargas. Faltam apenas indicar, para que tudo fique provisoriamente próximo do completo, as memórias escritas dos familiares mais chegados, neste caso a irmã, já a, Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos (Olhando para Trás Vejo Pascoaes, 1971), e as sobrinhas Maria do Carvalhal (Pascoaes, 1977) e Maria José Teixeira de Vasconcellos (Na Sombra de Pascoaes, 1993 e Pascoaes, 1995), também antes convocada. A estes testemunhos familiares junto ainda, pela confidencialidade, e sem prejuízo dos de Thelen e Agustina, o de Francisco de Athayde Machado de Faria e Maia (A Minha Velha Pasta, 1937), conterrâneo de Pascoaes coimbrão, e o de Eduardo de Oliveira (Monólogo, 1957.1963-1983), filho de médico íntimo da família de Pascoaes, Vasco de Oliveira, e irmão de Ernesto Veiga de Oliveira. Fale-se ainda de Pedro Van Zeller, filho de Maria Fernanda de Magalhães e Menezes Van Zeller, e de Ângelo César, que, com António Duarte, foi personagem do passeio fabuloso à cividade de Travassos, na baixa de Montalegre, no livro Duplo Passeio.

António Cândido Franco
2-12 de Agosto de 2002




1 Só apresento, quer para os livros do autor, traduções incluídas, quer para os que sobre eles se escreveram a data das primeiras edições. Para notícia mais miúda consultar Uma Bibliografia de Teixeira de Pascoaes (António Cândido Franco, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2000).

2 Ver, para tudo o que diga respeito à Renascença, os trabalhos de Alfredo Ribeiro dos Santos, A Renascença Portuguesa - Um Movimento Cultural Portuense (Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1990) e Paulo Samuel, A Renascença Portuguesa - Um Perfil Documental (Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1990).

3 Deixo aqui um panorama muito incompleto das traduções dos livros de Teixeira de Pascoaes e da bifurcação de ramais, na cultura ibérica e europeia, que o seu nome e obra abriram. Estão de fora nesta cronologia, as traduções anteriores, para o espanhol e francês, que vão de 1920 a 1931, em que sobressaem os trabalhos do catalão Fernando Maristany (1920 e 1922), do castelhano Valentín de Pedro (1920) e da francesa Suzanne Jeusse (1930 e 1931)

4 Deste autor, em colaboração com Afonso Botelho, ou vice-versa, ver ainda a compilação A Filosofia da Saudade (1986).

5 Assinalem-se, do livro, as traduções francesa (Fayard, 1998) e espanhola (Anagrama, 1993); indispensável, quando de Thelen se trata, o manuseamento do volume português do autor, Cartas a Teixeira de Pascoaes (Assírio & Alvim, 1997).

6 Passo pelas dissertações apresentadas na estranja, à espera, de resto, de levantamento bastante mais completo.