Teixeira de Pascoais
   
Pascoaes num relâmpago O caminho de Pascoaes
O caminho da Renascença Portuguesa
 


No dia 14 de Dezembro faz cinquenta anos que a morte levantou Teixeira de Pascoaes da terra, devemos por isso lembrar este vulto, que foi um dos grandes do nosso século XX. Hoje, que a memória do nosso povo se parece desfazer como uma onda sobre as areias do materialismo, num ambiente a que o metafísico René Guénon chamou o reino da quantidade, bem merece ser louvada esta iniciativa da Biblioteca Pública Municipal do Porto.

Pascoaes deu a sua vida pelo despertar das qualidades originais do povo português, marcando, com o grupo da Renascença Portuguesa, a única verdadeira resistência ao estrangeirismo vitorioso. Na polémica, em torno do saudosismo, entre o Poeta e António Sérgio, o arcanjo da espada dum relâmpago e o homem da espada de pau, como mutuamente se apelidaram, cristalizaram as duas tendências que o Portugal de então vivia no seu íntimo: a redescoberta de um caminho propriamente português, que pudesse enriquecer o mundo com algo de novo, ou o caminho do mimetismo passivo da Europa. Venceu o senso-comum do psitacismo, perdeu o criacionismo.

 

 
  O caminho de Pascoaes  
 

A Saudade para Pascoaes é um princípio metafísico inerente à constituição ontológica do ser português. Cada povo, como cada pessoa, tem uma forma única de se relacionar com o transcendente e a Saudade é o modo especificamente português, incluindo aqui também o galego. Se é verdade que Pascoaes parece inicialmente querer tender para uma concepção da Saudade como exclusivamente portuguesa, todavia reconhece que ela existe noutros povos, senão até, de modos diferentes, em todos. O que acontece é que a Saudade assume no espírito português, entre poetas, filósofos e no seio espontâneo do povo uma importância que não assume em mais nenhum. Pascoaes é aliás o primeiro a dar exemplos dessas manifestações no estrangeiro (Schurée em França, Ribera y Rovira na Catalunha, por exemplo), mas nota que elas são esparsas e que só em Portugal são expressão de um povo inteiro, desde os cancioneiros populares aos cumes dos poetas. É esta a originalidade portuguesa.

O que é então a Saudade e de que modo se liga ao destino de Portugal? A Saudade é uma síntese entre o passado e o futuro, entre a lembrança e a esperança. O ser saudoso sente-se num lugar entre-dois, vive, na lembrança, a nostalgia passiva da infância e, na esperança, o movimento para o futuro. Mas este sentimento é ainda apenas uma pálida imagem do que é a Saudade. Esse sentimento, ampliado à natureza toda, universalizado, leva o indivíduo à verdadeira Saudade, a lembrança da Origem ou do Criador - no dizer de Camões:

…a Saudade
Daquela santa cidade
Donde est'alma descendeu.

O Regresso ao Paraíso é a dramatização desta subida, a epopeia que devia preceder os novos descobrimentos portugueses, desta feita em espírito. É este encontro do ser com a sua origem no passado, que já não é o passado cronológico mas ontológico, a raiz, firmamento e fundamento, do ser; é este encontro que a Saudade visa, começando por realizar no percurso espiritual de quem segue esta via uma separação relativamente ao concreto existencial, embora tomando-o como ponto de apoio e não procedendo gnosticamente à sua negação, para permitir depois a descoberta do ser com a sua Origem, elevando consigo toda a Criação. A separação, a ruptura, vivida no centro do ser é superada pela superior união.

A Saudade não é, todavia, e é importante esclarecê-lo, pois esse é um dos principais erros de quem imediatamente a refuta ou a ela adere - como veremos depois -, a Saudade não é, dizia, concebida como um fim em si mesma, é antes um meio para algo de tremendo a que Pascoaes chama a criação do Reino Espiritual. Para atingir este fim, o fim último do ser humano, cada ser individualmente e cada povo genericamente considerado tem o seu próprio meio. No entender de Pascoaes, o saudosismo é o modo próprio do português.

A natureza vive um estado de passividade saudosa relativamente à Origem, mas como não tem meios de ultrapassar esse estado limita-se a reviver ciclicamente o mesmo nascimento e a mesma morte, entre Primavera e Inverno. A manifestação cíclica da natureza parece ser a expressão de uma ânsia de libertação que encontra sempre o obstáculo da morte, condenada que está como Tântalo a ver descer a água da vida sempre que se curva para beber ou a fugir-lhe o ramo esplendoroso pleno de frutos quando ergue os braços para comer. Assim, a natureza a cada Primavera parece ter encontrado o resplendor eterno precisamente no momento em que o Outono a vem dissolver sob o manto dourado da morte.

Para Pascoaes, como para Sampaio Bruno, o homem é o ser que deve continuar a obra que o Criador deixou incompleta, porque "Deus é quase omnipotente, omnisciente e omnipresente; numa palavra, Deus é quase Deus" (A Minha Cartilha). Só o homem tem a chave da redenção, uma vez que ele é como que o cume mais elevado da natureza, a sua consciência, o elemento activo da vida: "E coloquemos o ser humano na altura que lhe pertence como parente mais próximo do Criador, e como sendo a mais alta consciência da Criação, em luta contra o Mal, esse duelo entre nós e nós, ou entre Deus e Deus, o Pai e o Filho" (idem). O homem é um ser intermediário, como Pascoaes não se cansa de repetir, participa da natureza animal, pela lembrança passiva do instinto, e da divina, pela lembrança activa da Origem. O homem sente-se preso, mas sabe-se livre, eis a súmula da Saudade; tem os pés enterrados, mas a sua imaginação forja-lhe os meios de libertação, tanto sua que está cativo, como da natureza que o tem no cativeiro - o prisioneiro e o guarda são presos um do outro. Assim, vai procurando um outro meio onde possa crescer e desabrochar em alma e em corpo já anímico ou astral, como lhe chama Pascoaes n'As Sombras. É neste sentido que deve ser entendida a ideia de criação do Reino Espiritual, como transcensão do plano onde a matéria é passiva para um outro onde é liberdade plástica dócil ao espírito. O primeiro dos problemas do homem é o de não se reconhecer como espírito, o que o torna quase incapaz de imaginar o que seja o Reino Espiritual.

Como garantir que esse novo Reino não seja pura fantasia que sujeite o homem a uma outra prisão ou a quimérico sonho? Vejamos o que nos diz Pascoaes a certa altura do Verbo Escuro:

A alma é criação ou, antes, excedência duma forma viva e mais antiga…
A alma tem de ser criada pelo corpo; mas este verbo criar significa também revelar.

Criar não corresponde a tirar do Nada alguma cousa. Ora, tirar dalguma cousa uma outra, diferente, é criar, porque o novo que surge, resulta duma substância anterior, excedendo-se por virtude própria.

Uma certa criação é uma possibilidade, realizando-se; mas aquela já existia, nesta, dalgum modo.

Para Pascoaes criar o mundo espiritual é então revelá-lo, visionando e tornando acto o possível que já habita, embora velado ao profano, nesse espaço etéreo ou translúcido onde os poetas verdadeiros lêem como profetas. Para garantir que a obra do homem seja verdadeira criação ou revelação Pascoaes propõe que se tome como ponto de apoio da contemplação a natureza, para que desse cerro se possa contemplar a Origem através da memória.

No São Paulo o Poeta diz-nos que há dois tipos de memória ou lembrança: "O homem é um ser perverso, porque nele a bestialidade herdada contamina o seu desenvolvimento espiritual, que toma aspectos monstruosos. / Mas, no homem, há outra lembrança mais antiga: a lembrança da Origem ou do Criador. Cultivá-la é que é viver religiosamente." Cultivando e despertando em si a memória da Origem, o homem sabe que a sua criação continua a obra do Criador, porque se recorda do sentido que deve imprimir a essa criação. Estamos já um pouco longe da reminiscência platónica. É a própria contemplação da natureza que sugere para onde a tensão da imaginação criadora ou, mais propriamente, da memória imaginativa (idem) se deve dirigir, pois a criação verdadeira deve ser um prolongamento da obra que vive na natureza. A "arte de recordar - como lhe chama Pascoaes ainda no São Paulo -, a única arte trágica inexplorada" é a via do saudosismo que o Poeta antevia como nova forma religiosa, constituída como Igreja Lusitana, independente de Roma, que a seu ver tem desvirtuado a essência da alma portuguesa, simultaneamente cristã e pagã, como foi para Prisciliano e teria permanecido com S. Pedro de Rates (O Espírito Lusitano ou o Saudosismo).
A imaginação é, portanto, o órgão privilegiado para realizar esta transubstanciação ou redenção da natureza. Pensar-se-á que se trata apenas de uma metáfora, mas Pascoaes é bem explícito:

"Ora, o homem tem o dom de contemplar a vida espiritual que nele principia e para além dele existe. O homem contempla o seu ser corpóreo e doloroso, e vê ou imagina, ao mesmo tempo, um outro ser perfeito, liberto das contingências materiais. Eis a origem de Deus./Não se ligue à palavra imaginar o seu sentido vulgar; ela representa a própria acção do homem a criar vidas espirituais. E estas vidas espirituais (escusado é repeti-lo) têm mais realidade, por mais perfeitas e pela influência profunda que em nós exercem, que as vidas anteriores a ela ou de natureza transitória." (O Génio Português na sua expressão filosófica, poética e religiosa)

Tudo se passa, porém, na relação do espírito consigo mesmo, e aqui Pascoaes está longe de Leonardo Coimbra, como José Marinho e Álvaro Ribeiro estão próximos de Pascoaes: "À ideia que se mostra aos outros, prefiro a ideia que a si mesma se revela, pois creio que a emoção nasce do contacto do espírito com o espírito e não do encontro deste com as cousas. É que a ideia, ao contemplar-se, ainda viçosa da recente criação, enamora-se do seu próprio esplendor; e nela surpreendemos a alvoroçada cobiça do Universo, ao ver-se enriquecido…" (Uma carta a dois filósofos [Leonardo Coimbra e Teixeira Rego]). A contemplação da natureza serve apenas de suporte para acordar no homem as profundas ressonâncias adormecidas das ideias primordiais, que nos habitam como potências.

No homem vive o drama terrível e último da luta de Deus consigo próprio, em busca da sua própria redenção, que é a redenção do homem e da natureza pelo renascimento desta Terra no Reino Espiritual. Mas não é Deus na sua totalidade, se assim me posso exprimir, que está comprometido na queda; uma parte de Deus há que permanece inalterável e é o pressentimento mnésico que o homem tem dessa parte que vai elevando toda a Criação, como um foco exercendo atracção: "É nesse tempo supra-cronológico a sugerir-nos a ideia de eternidade, que vive a mesma alma que nos criou, e é a mãe da nossa alma racional. A primeira é imortal, e, em nosso ser, uma parte integrante do Criador; a segunda é mortal e originada por aquela, e parte integrante da Criatura" (A minha Cartilha).

Não é de lirismo que se trata nem de fuga passiva ao mundo em que vivemos; quando Pascoaes fala da criação ou revelação do Reino Espiritual fala com uma seriedade que nós dificilmente podemos conceber. Quem ler a esta luz o Duplo Passeio ou As Sombras, por exemplo, poderá verificar que o real onírico se vai insinuando sobre o real sensível, numa luta tremenda análoga à de Jacob com o anjo até ser abençoado. É preciso ter em mente, e isso não tem sido referido, embora seja essencial para a sua compreensão, que Pascoaes era leitor de Swedenborg: "Só quem tiver os olhos dum Swedenborg, vê os anjos do céu, como quem vê um animal terrestre, à luz do sol" (Santo Agostinho, IX).

O mundo subtil pode ser pura ilusão aprisionante se não for banhado por uma luz superior; recorde-se o que diz Álvaro Ribeiro a António Telmo a esse propósito: "As realizações no mundo intermediário estão envolvidas de múltiplos enganos. Eu não digo que as pessoas que nos põem em contacto com esse mundo não sejam bem intencionadas. Ou porque não pode ou porque não quer (fez um gesto vago) Deus é como alheio ao que ali se passa. Só o filósofo é capaz de intuir a verdadeira ideia de Deus" (António Telmo, Contos, "Trabalho de Grupo"). Para a revelação do mundo espiritual é necessário passar primeiro pelo mundo intermediário como por um guardião. Pascoaes passou por essas areias movediças, essa lama da alma que é o plano inferior do mundo subtil, para poder vir a entrever o que lhe foi dado ver.

A Saudade é esse movimento do ser para o reencontro com a sua identidade profunda ou personalidade, que é a harmonia das individualidades, e tanto vale como via gnósica para o indivíduo particular, como para o povo em geral.

 
  O caminho da Renascença Portuguesa  
 

Depois de Pascoaes perceber por experiência própria as possibilidades da via saudosista, procurou ampliar o mesmo movimento, dando-o ou relembrando-o ao povo português, para "reintegrar (…) na sua pureza essencial" a sua alma - assim o afirma Pascoaes num dos manifestos da Renascença Portuguesa, muito ao jeito de Pascoal Martins -, como numa fonte onde este pudesse beber as energias criadoras do seu destino original. Assim, do mesmo modo que o próprio Pascoaes teve de começar por realizar na sua vida um movimento de separação em relação aos elementos que parasitavam o seu ser profundo (foi o caso do abandono da advocacia e a causa do seu retiro para o "eremitério" de S. João de Gatão), Portugal devia abandonar, como quem deixa um lastro pesado para subir mais ligeiro, todas as influências estrangeiras que desvirtuassem a sua alma.

A fundação da Renascença Portuguesa, essa "organização secreta" alternativa a uma maçonaria decadente, como diz Jaime Cortesão numa carta a Raúl Proença, tem como fim último realizar um trabalho sistemático de levantamento do povo português, para me servir de uma expressão de Álvaro Ribeiro a propósito do seu livro O Problema da Filosofia Portuguesa.

Portugal, naquela época conturbada e fértil da implantação da República, em que se desprendiam do seu ser as energias genesíacas que podiam possibilitar uma mudança elevante, precisava de um ideário metafísico, que norteasse e canalizasse essas energias primaveris, para dar vida nova a uma pátria velha, metida em corpete, de modo a que, reencontrando-se, não caísse, como caiu, numa subjugação passiva ao estrangeiro. Fernando Pessoa dizia que Portugal estava como uma criança à soleira da porta, numa aldeia, seguindo fascinada o movimento dos forasteiros. E era verdade então, como é verdade hoje.

A Renascença Portuguesa reunia numa bela casa, que ainda hoje pode ser apreciada, na Rua dos Mártires da Liberdade e que bem precisava de ser recuperada como um dos símbolos mais elevados do século XX portuense, senão português. A Renascença rodeou-se dos meios necessários para empreender a sua grande obra: arranjou um órgão literário (a revista A Águia), formou um escol (através da primeira Faculdade de Letras do Porto, fundada por Leonardo Coimbra) e possibilitou a educação do povo (através das Universidades Populares). Procurou assim abranger todas as frentes para proceder a uma educação elevante, mas a entropia institucional, tranquila, tolerantemente, deixou-a cair nos braços de Hipnos, esse irmão de Tanatos. Todavia a morte da Renascença como instituição, não como espírito, estava já prenunciada pela prematura polémica entre o eixo Norte e o eixo Sul, representados respectivamente por Pascoaes e por Raúl Proença ou António Sérgio.

Na doutrinação da Renascença há dois pontos fundamentais e confluentes a destacar, como sendo aqueles à volta dos quais se erguem mais energicamente as vozes: o Saudosismo e o Messianismo. Referi as duas tendências apressadas, de sinal oposto, que reagem com enganosa imediatez a esta doutrina: uma vê nela algo de passadista e até retrógrado, algo de parado ou movimentando-se para trás; outra identifica-se com ela precisamente pelo que aí julga ver de passadismo e fuga ao mundo.

Nem a repulsa imediata, nem a imediata adesão são defensáveis, pecam pelo mesmo erro contra a verdade: a superficialidade. O estudo da doutrinação renascente, da argumentação de Pascoaes na luta ideal com António Sérgio, deixa reconhecer facilmente que o caminho que a Renascença queria para Portugal não era passivo, nem passadista, mas criador de um novo destino. A revolta contra a Renascença parece dever-se, na realidade, à sua firme oposição em relação à orientação exclusivamente materialista e sem valores superiores que notava já espalhada pela Europa e tratava de denunciar de modo espantosamente lúcido e antecipador. O pensamento de Pascoaes é altamente progressista, só que o seu modelo de progresso não é o do aperfeiçoamento da máquina, mas o do homem enquanto espírito: "Continuo a afirmar que o progresso espiritual é causa e não efeito do progresso económico" (A Saudade e o Saudosismo, "Resposta a António Sérgio").

Portugal devia reencontrar o seu sistema social, político, mas também religioso, o que implicava, vimos já, a ruptura com a Igreja Católica Romana, pela fundação da Igreja Lusitana, que retomasse o espírito do cristianismo panteísta e pagão que existia em Portugal já antes da fundação da nacionalidade (por essa razão a Igreja se deveria chamar Lusitana e não Portuguesa) e que só por razões políticas, afirma Pascoaes, D. Afonso Henriques subordinou a Roma.

Assim, se o saudosismo é a memória da Origem que possibilita a orientação das energias criadoras no sentido ascendente da libertação, o messianismo é já a formação pela imaginação da figura libertada e libertadora, é uma projecção no futuro e, simultaneamente, uma invocação ou oração do homem já redimido. Pela recordação da Origem o homem cristaliza, num processo complementar a este, à volta de um arquétipo as qualidades originais do Homem Universal ou Primordial, na perfeição da sua essência, numa palavra: cria e revela no mesmo processo o Messias.

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Concordando-se ou discordando-se da doutrina, é uníssona, todavia, a aceitação de que a coerência entre os princípios e a acção, a originalidade e a coragem nortearam toda a vida de Teixeira de Pascoaes, que a B.P.M.P. aqui homenageia expondo o seu espólio. Ironicamente Pascoaes foi talvez mais reconhecido fora de Portugal, embora tenha lutado por ele como poucos. Nicolau Berdiaeff, por exemplo, refere-se a Pascoaes nestas palavras: "Li o Paulus de Pascoaes e também o Retours au Paradis. Pascoaes provoca vivamente o meu interesse; o seu espírito está, em muitos pontos, próximo do meu, especialmente no que diz respeito à defesa do humano no cristianismo. Muito me tocou a frase: "Deus é o homem no homem…" Para os teólogos, naturalmente, Pascoaes é paradoxal e atemoriza-os. Todavia, é este elemento paradoxal que exprime a vida e a sua experiência da vida. É isso que eu amo na sua obra, mas a teologia não trágica, não o poderá compreender. Gosto muito do Retours au paradis principalmente do fim. Este poema demonstra que também nos nossos dias nos podemos abeirar de Dante e Milton. Pascoaes é antes de tudo Poeta místico com temática religiosa. Muito lhe agradeço [ao tradutor do São Paulo] esses dois livros que me permitiram conhecer um dos mais notáveis autores do nosso tempo." (Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Olhando para trás vejo Pascoaes).

Não posso terminar estas breves palavras sobre Pascoaes e a Renascença, sem lembrar que, por muito original, Pascoaes não apareceu sozinho, como por geração espontânea; o movimento de que ele se tornou norteador começara já em Sampaio Bruno e Guerra Junqueiro, seus mestres, e encontrou ressonância em espíritos tão elevados como Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Teixeira Rego, Raúl Brandão, Aarão de Lacerda, Afonso Lopes Vieira, Mário Beirão ou António Carneiro, o pintor do saudosismo, como se lhe refere Pascoaes, e tantos outros. Este mesmo movimento foi continuado na geração seguinte por Álvaro Ribeiro e José Marinho, que lançaram o movimento da Filosofia Portuguesa, e prolongou-se até aos dias de hoje com os seus discípulos.

É importante relembrar a obra de Pascoaes e da Renascença, mas é urgente hoje voltar a pensá-la.


Pedro Sinde